Destreinamento como biologia reversa do desempenho: a dissolução progressiva das arquiteturas cardiorrespiratória, metabólica e muscular na ausência do estímulo de endurance

por | jan 15, 2026

O destreinamento não constitui um simples “apagamento” passivo das adaptações induzidas pelo treinamento, mas um processo biologicamente ativo, hierarquizado no tempo e profundamente regulado por mecanismos fisiológicos e bioquímicos específicos, que se manifestam de maneira distinta conforme o nível de treinamento prévio, a duração da interrupção do estímulo e a natureza do sistema funcional envolvido. À luz da literatura clássica e contemporânea, o destreinamento emerge como a expressão operacional do princípio da reversibilidade biológica, no qual estruturas e vias metabólicas energeticamente custosas são progressivamente desmanteladas quando o estímulo mecânico, metabólico e neuroendócrino deixa de justificar sua manutenção.

Do ponto de vista cardiorrespiratório, os dados convergem de forma inequívoca para a constatação de que a redução do VO₂máx é uma das manifestações mais precoces e consistentes do destreinamento em atletas de endurance. Meta-análises recentes demonstram quedas significativas tanto em períodos curtos quanto prolongados de cessação do treinamento, com maior magnitude em indivíduos altamente treinados e em interrupções mais longas. Esse declínio inicial é explicado primordialmente por mecanismos centrais, em especial pela rápida redução do volume plasmático e do volume sanguíneo total, fenômeno que se instala em poucos dias de inatividade e compromete o retorno venoso, o enchimento diastólico e, consequentemente, o volume sistólico máximo. A elevação compensatória da frequência cardíaca durante o exercício mostra-se insuficiente para preservar o débito cardíaco máximo, resultando em queda do transporte sistêmico de oxigênio.

À medida que o destreinamento se prolonga, mecanismos estruturais passam a assumir papel central. Revisões sistemáticas demonstram reduções significativas da massa ventricular esquerda, da espessura da parede e das dimensões cavitárias, sobretudo em atletas de alto nível, refletindo uma regressão do remodelamento cardíaco induzido pelo treinamento de endurance. Esse processo não depende apenas da duração absoluta do destreinamento, mas interage fortemente com o estado de treinamento prévio, indicando que corações mais adaptados são também mais suscetíveis à regressão estrutural quando o estímulo desaparece. Tais alterações estruturais consolidam a queda do volume sistólico e impõem limites adicionais ao VO₂máx, mesmo quando os ajustes hemodinâmicos iniciais já se estabilizaram.

No nível periférico, o destreinamento promove uma reorganização profunda do músculo esquelético, tanto do ponto de vista metabólico quanto microestrutural. Estudos clássicos e contemporâneos mostram redução progressiva da densidade capilar, da atividade de enzimas oxidativas mitocondriais e da diferença arteriovenosa de oxigênio, indicando perda da capacidade de extração periférica de O₂. Esse fenômeno explica por que, após as primeiras semanas, a continuidade do declínio do desempenho não pode mais ser atribuída exclusivamente a fatores centrais, mas passa a refletir limitações intramusculares ao fluxo e à utilização de oxigênio.

Do ponto de vista bioquímico, o destreinamento induz uma mudança clara no padrão de utilização de substratos energéticos. Mesmo períodos curtos de inatividade são suficientes para aumentar o quociente respiratório durante o exercício submáximo, indicando maior dependência da oxidação de carboidratos e redução da contribuição lipídica . Esse deslocamento metabólico está associado à diminuição da atividade da lipoproteína lipase muscular, à redução da expressão e translocação do transportador GLUT-4 e à queda da sensibilidade à insulina, configurando um estado metabólico menos eficiente e mais glicodependente. Paralelamente, os estoques de glicogênio muscular retornam progressivamente a níveis pré-treinamento, comprometendo a capacidade de sustentar exercícios prolongados, mesmo quando o VO₂máx se mantém relativamente preservado, como demonstrado em estudos nos quais a capacidade de endurance cai de forma acentuada sem alterações significativas do VO₂máx.

Aspectos eletrolíticos e de excitação–contração também participam desse processo. Evidências experimentais indicam que o destreinamento pode alterar a regulação iônica intramuscular, particularmente envolvendo K⁺ e Mg²⁺, com potenciais implicações sobre a liberação de Ca²⁺ pelo retículo sarcoplasmático e, consequentemente, sobre a fadiga muscular durante exercício prolongado. Embora esses mecanismos sejam menos frequentemente avaliados em estudos modernos, eles reforçam a noção de que o declínio do desempenho não decorre apenas de “descondicionamento global”, mas de alterações finas na biofísica e na bioquímica da fibra muscular.

Do ponto de vista hormonal, o destreinamento caracteriza-se por alterações mais sutis, porém funcionalmente relevantes. Reduções da sensibilidade à insulina são consistentes em curto prazo, enquanto hormônios como cortisol, glucagon e hormônio do crescimento tendem a permanecer relativamente estáveis, ao menos nas fases iniciais. Em alguns contextos, especialmente em atletas jovens, observa-se um ambiente transitoriamente mais anabólico, com preservação ou até aumento de massa magra em períodos muito curtos de destreinamento, embora esse efeito não seja sustentado quando a interrupção se prolonga.

Um aspecto central que emerge de forma transversal nos artigos analisados é que o destreinamento não é um fenômeno dicotômico, mas contínuo e modulável. Estratégias de redução parcial do treinamento, desde que preservem a intensidade do estímulo, mostram-se capazes de atenuar de maneira significativa as perdas cardiorrespiratórias, metabólicas e estruturais, preservando o volume sanguíneo, o VO₂máx e parte das adaptações musculares. Essa observação tem profundas implicações práticas e conceituais, pois ilumina a ideia de que a biologia do desempenho em alguns casos responde mais à qualidade do estímulo do que à sua quantidade absoluta.

Em síntese, o destreinamento representa um processo biologicamente organizado, no qual a retirada do estímulo de endurance desencadeia uma cascata integrada de eventos hemodinâmicos, estruturais, metabólicos e moleculares. A perda de desempenho resulta da convergência entre redução do transporte central de oxigênio, regressão do remodelamento cardíaco, diminuição da capacidade oxidativa muscular e reprogramação do metabolismo energético. Longe de representar uma simples “inatividade”, o destreinamento revela-se como uma adaptação reversa, governada pelos mesmos princípios evolutivos de economia energética que sustentam as adaptações ao treinamento, reafirmando que, na biologia do exercício, manter é sempre um ato tão ativo quanto adaptar.

Referências

BARBIERI, A. et al. Cardiorespiratory and metabolic consequences of detraining in endurance athletes. Frontiers in Physiology, v. 14, 2024.

CHEN, Y. T. et al. Two weeks of detraining reduces cardiopulmonary function and muscular fitness in endurance athletes. European Journal of Sport Science, 2021.

MADSEN, K. et al. Effects of detraining on endurance capacity and metabolic changes during prolonged exhaustive exercise. Journal of Applied Physiology, v. 75, n. 4, 1993.

MASSAROTTO, R. J. et al. Effects of detraining on left ventricular mass in endurance-trained individuals. European Journal of Preventive Cardiology, 2024.

MUJIKA, I.; PADILLA, S. Cardiorespiratory and metabolic characteristics of detraining in humans. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 33, n. 3, 2001.

MUJIKA, I.; PADILLA, S. Detraining: loss of training-induced physiological and performance adaptations. Part I. Sports Medicine, v. 30, n. 2, 2000.

MUJIKA, I.; PADILLA, S. Detraining: loss of training-induced physiological and performance adaptations. Part II. Sports Medicine, v. 30, n. 3, 2000.

NEUFER, P. D. The effect of detraining and reduced training on the physiological adaptations to aerobic exercise training. Sports Medicine, v. 8, n. 5, 1989.

ZHENG, J. et al. Effects of short- and long-term detraining on maximal oxygen uptake in athletes: a systematic review and meta-analysis. BioMed Research International, 2022.