CARGA INTERNA NO TREINAMENTO DE ENDURANCE: FUNDAMENTOS FISIOLÓGICOS, MÉTODOS DE QUANTIFICAÇÃO E APLICABILIDADE DO TRIMP NO MODELO DOSE–RESPOSTA

por | fev 16, 2026

A carga interna no treinamento de endurance constitui o elo fisiológico entre o estímulo externo aplicado e a resposta adaptativa subsequente. Diferentemente da carga externa — definida como o trabalho mecânico executado (distância, potência, velocidade, acelerações) — a carga interna representa o estresse psicofisiológico efetivamente imposto ao organismo, refletindo perturbações homeostáticas nos sistemas cardiovascular, metabólico, neuromuscular e autonômico. A literatura contemporânea em fisiologia do exercício e ciência do treinamento converge para o entendimento de que o processo adaptativo é governado pela magnitude, duração e natureza específica do “impulso” aplicado, isto é, pelo produto integrado entre intensidade e tempo, cuja tradução operacional clássica se materializa no conceito de Training Impulse (TRIMP), originalmente proposto por Banister. Entretanto, avanços recentes demonstram que a validade e utilidade do TRIMP dependem criticamente de sua formulação matemática, da individualização fisiológica e do contexto esportivo específico.

No âmbito do endurance, a mensuração da carga interna assume relevância estratégica porque adaptações aeróbias — como aumento do VO₂máx, deslocamento dos limiares ventilatórios e metabólicos, melhoria da potência/velocidade crítica e eficiência oxidativa — são resultado direto da dose fisiológica acumulada ao longo do tempo. A quantificação precisa dessa dose é condição essencial para estabelecer relações dose–resposta robustas. Estudos recentes em esportes de resistência demonstram que métricas baseadas em frequência cardíaca, especialmente diferentes formulações de TRIMP, apresentam correlações moderadas a muito fortes com mudanças em variáveis fisiológicas submáximas e máximas, superando em vários contextos medidas puramente externas ou subjetivas.

A distinção conceitual entre carga externa e interna é central para compreender a dinâmica adaptativa. A carga externa representa a exposição; a carga interna representa a dose biológica efetiva. Tal distinção é particularmente crítica em esportes de endurance, nos quais o mesmo volume externo pode produzir respostas internas distintas dependendo do estado de treinamento, da fadiga acumulada, da altitude, da termorregulação e do substrato energético predominante. Modelos mais recentes de adaptação reconhecem que diferentes sistemas energéticos respondem a impulsos específicos e que a redução da carga a um único escalar pode obscurecer adaptações diferenciadas entre sistemas alático, glicolítico e oxidativo. Ainda assim, para o treinamento predominantemente aeróbio, métricas baseadas na frequência cardíaca continuam sendo ferramentas operacionais de elevada aplicabilidade prática.

A revisão sistemática mais recente envolvendo esportes coletivos com forte componente de endurance demonstrou que o TRIMP baseado em frequência cardíaca apresenta correlações significativas com alterações no VO₂máx (r≈0,63), velocidade no limiar de 2 mmol·L⁻¹ (r≈0,47) e velocidade no OBLA (r≈0,43), enquanto o sRPE apresenta associações mais modestas. Em atletas de ciclismo competitivo, métodos individualizados de TRIMP (iTRIMP) e versões fisiologicamente ajustadas como o Lucia TRIMP (luTRIMP) mostraram as maiores correlações com mudanças em potência no limiar e desempenho em contrarrelógio. De modo semelhante, durante treinamento em altitude no esqui cross-country, o luTRIMP apresentou relações muito fortes com alterações em variáveis fisiológicas-chave, reforçando a importância da individualização da ponderação de intensidade.

O TRIMP clássico de Banister é calculado pela seguinte estrutura geral:

TRIMP = Duração (min) × ΔFC × y

onde ΔFC representa a fração da reserva de frequência cardíaca utilizada, definida como:

ΔFC = (FCmédia − FCrepouso) / (FCmáx − FCrepouso)

O termo y corresponde a um fator exponencial que pondera a intensidade do exercício, diferenciado por sexo na formulação original:

Para homens:
y = 0,64 × e^(1,92 × ΔFC)

Para mulheres:
y = 0,86 × e^(1,67 × ΔFC)

Essa estrutura matemática incorpora o princípio fisiológico de que a relação entre intensidade e estresse interno não é linear, mas exponencial, refletindo o aumento desproporcional do recrutamento simpático, da produção de lactato e da demanda oxidativa em intensidades próximas ao limiar anaeróbio.

Exemplo numérico aplicado ao endurance contínuo:

Suponha um atleta masculino com:
FCrepouso = 50 bpm
FCmáx = 190 bpm
FCmédia da sessão = 160 bpm
Duração = 60 min

Calcula-se:

ΔFC = (160 − 50) / (190 − 50)
ΔFC = 110 / 140
ΔFC ≈ 0,786

y = 0,64 × e^(1,92 × 0,786)
y ≈ 0,64 × e^(1,509)
y ≈ 0,64 × 4,52
y ≈ 2,89

TRIMP = 60 × 0,786 × 2,89
TRIMP ≈ 136 unidades arbitrárias

Esse valor representa a carga interna integrada da sessão. A classificação prática pode ser contextualizada individualmente, mas, em muitos ambientes de endurance, valores aproximados podem ser interpretados como:

<50 AU: leve
50–100 AU: moderado
100–150 AU: elevado

> 150 AU: muito elevado

Entretanto, classificações absolutas são menos relevantes do que a análise longitudinal, particularmente quando integradas a modelos de carga aguda/crônica ou a modelos impulso–resposta. Além do modelo exponencial contínuo de Banister, variantes zonais foram propostas. O Edwards TRIMP distribui o tempo em zonas de FC com pesos lineares crescentes; o Lucia TRIMP utiliza zonas individualizadas baseadas em limiares fisiológicos; o iTRIMP utiliza a relação individual FC–lactato para gerar ponderação exponencial personalizada. Evidências indicam que métodos que incorporam características fisiológicas individuais apresentam maior validade dose–resposta do que modelos genéricos.

Apesar da ampla utilização, a validade conceitual da carga de treinamento como medida de “dose” tem sido criticamente examinada. Argumenta-se que muitas métricas confundem duração com intensidade e que o trabalho total não representa necessariamente o estresse biológico efetivo. Essa crítica é particularmente relevante quando se comparam sessões com diferentes distribuições de intensidade, por exemplo, treinamento intervalado de alta intensidade versus volume contínuo extensivo. Modelos tridimensionais recentes propõem a decomposição da carga em componentes específicos de sistemas energéticos para capturar adaptações diferenciadas. Ainda assim, para o monitoramento cotidiano do endurance predominantemente aeróbio, o TRIMP permanece operacionalmente robusto.

O sRPE, embora amplamente utilizado, apresenta magnitude de correlação dependente da intensidade predominante da sessão. Em atletas de endurance, a relação sRPE–TRIMP é mais consistente em treinos de baixa intensidade prolongada e menos robusta em sessões de alta intensidade, possivelmente devido à influência do componente anaeróbio e da variabilidade na duração efetiva. Assim, o sRPE pode atuar como complemento quando há perda de dados de FC, mas não substitui completamente métricas fisiológicas contínuas.

A literatura contemporânea também enfatiza que o uso da carga deve transcender a simples quantificação métrica e integrar-se à tomada de decisão contextual, incluindo risco de lesão, fadiga acumulada e periodização. Modelos impulso–resposta clássicos demonstram que desempenho é função simultânea de componentes positivos (fitness) e negativos (fadiga), ambos derivados da carga acumulada. Assim, o TRIMP não é apenas um número descritivo, mas uma variável de entrada para modelagem preditiva do desempenho.

No endurance competitivo, evidências demonstram que cargas semanais acima de determinados limiares acumulativos estão associadas a melhorias em variáveis aeróbias, desde que acompanhadas de recuperação adequada. Entretanto, excesso de carga sem recuperação adequada pode conduzir a overreaching não funcional, fenômeno cuja prevenção depende de monitoramento sistemático.

Em síntese, a carga interna representa o construto fisiológico central do treinamento de endurance. O TRIMP, especialmente em versões individualizadas, constitui método validado para quantificação dessa dose biológica, apresentando associações consistentes com adaptações aeróbias. Embora críticas conceituais ressaltem limitações metodológicas, a integração de TRIMP a modelos fisiologicamente fundamentados e a análise longitudinal contextualizada mantêm sua relevância científica e aplicada.

Referências

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