Bioenergética Integrada do Exercício e do Remo de Elite: Interação dos Sistemas Energéticos, Demandas Metabólicas Específicas e Implicações para o Controle de Carga no Esporte

por | abr 17, 2026

A compreensão dos sistemas energéticos no esporte exige uma abordagem integrada da bioenergética muscular, na qual a ressíntese de ATP constitui o eixo central da produção de trabalho mecânico. O trifólio bioenergético — sistema fosfagênio (ATP-PCr), sistema glicolítico e sistema oxidativo — não opera de forma isolada, mas sim em um continuum dinâmico e altamente interdependente, ajustando-se em tempo real às demandas impostas pela intensidade, duração e natureza do exercício.

Do ponto de vista fisiológico, a disponibilidade limitada de ATP intramuscular impõe a necessidade de mecanismos eficientes de ressíntese energética. O sistema fosfagênio fornece energia imediata por meio da hidrólise de ATP e da fosfocreatina, sustentando esforços de altíssima potência em escalas temporais extremamente curtas. Em paralelo, a glicólise anaeróbia permite a rápida produção de ATP a partir do glicogênio muscular, ainda que à custa do acúmulo de lactato e íons hidrogênio, este último estreitamente associado à acidose intramuscular e à fadiga. Por sua vez, o metabolismo oxidativo apresenta elevada capacidade energética, sustentando esforços prolongados, porém com limitação relativa na taxa de fornecimento de energia.

Historicamente, a literatura descreveu esses sistemas como sequenciais; entretanto, evidências contemporâneas demonstram que todos os sistemas energéticos são ativados praticamente de forma simultânea desde o início do exercício, com predominância relativa dependente das características da tarefa motora. Essa visão integrada representa uma mudança paradigmática importante, superando modelos clássicos que subestimavam a participação aeróbia em esforços de alta intensidade.

A literatura recente consolida essa perspectiva ao demonstrar que, mesmo em exercícios máximos de curta duração, há contribuição significativa do metabolismo oxidativo. A transição de predominância entre os sistemas ocorre de maneira mais precoce do que se supunha anteriormente, situando-se aproximadamente entre 75 e 80 segundos de exercício máximo, momento no qual as contribuições aeróbia e anaeróbia se equivalem. Esse achado possui implicações diretas na prescrição do treinamento, particularmente em modalidades de média duração e alta intensidade, nas quais a eficiência das cinéticas de oxigênio pode ser determinante para o desempenho.

A análise quantitativa da contribuição dos sistemas energéticos permanece um desafio metodológico relevante. Enquanto a produção aeróbia pode ser estimada com relativa precisão por meio do consumo de oxigênio, a mensuração da contribuição anaeróbia depende de métodos indiretos, como o déficit de oxigênio acumulado, análise de metabólitos musculares ou modelos matemáticos, todos sujeitos a limitações conceituais e técnicas. Essa incerteza metodológica reforça a necessidade de interpretação crítica dos dados e da integração de múltiplos indicadores fisiológicos.

No contexto aplicado, a interação entre os sistemas energéticos está diretamente relacionada à capacidade de produção de potência, resistência à fadiga e recuperação entre esforços. A elevada taxa de produção energética do sistema anaeróbio sustenta ações explosivas, enquanto o sistema aeróbio contribui tanto para a manutenção do esforço quanto para a recuperação metabólica, incluindo a ressíntese de fosfocreatina e a remoção de metabólitos.

Nesse cenário, o controle de carga de treinamento emerge como um elemento central na otimização do desempenho e na prevenção de lesões. A carga pode ser compreendida sob duas dimensões complementares: carga externa (trabalho realizado) e carga interna (resposta fisiológica e psicobiológica ao estímulo). A dissociação entre essas dimensões fornece informações críticas sobre o estado funcional do atleta, permitindo inferir níveis de fadiga, adaptação ou risco de overreaching.

A integração entre bioenergética e monitoramento de carga permite uma abordagem mais refinada da prescrição do treinamento. Por exemplo, sessões com elevada demanda glicolítica implicam maior estresse metabólico e necessitam de estratégias adequadas de recuperação, enquanto estímulos predominantemente oxidativos podem ser utilizados para modular o volume de treinamento com menor impacto agudo sobre a homeostase. Além disso, métricas como frequência cardíaca, lactato sanguíneo, percepção subjetiva de esforço (RPE) e variáveis derivadas de GPS ou potência mecânica possibilitam a quantificação simultânea das demandas energéticas e das respostas fisiológicas.

A incorporação das evidências específicas do remo de elite amplia substancialmente a compreensão aplicada desses princípios bioenergéticos. O remo olímpico, particularmente na distância de 2.000 metros, representa um dos modelos mais complexos de integração metabólica, exigindo simultaneamente elevada potência mecânica, resistência aeróbia e tolerância extrema à acidose metabólica. Atletas de elite apresentam valores excepcionais de consumo máximo de oxigênio, frequentemente superiores a 6–7 L·min⁻¹, associados a elevada massa muscular ativa e débito cardíaco, o que sustenta potências médias de aproximadamente 500–600 W ao longo da prova.

Do ponto de vista da contribuição energética, o remo caracteriza-se por uma predominância aeróbia, com valores típicos entre 70% e 88% da produção total de energia, enquanto a contribuição anaeróbia varia aproximadamente entre 12% e 30%, dependendo do método de estimativa e do perfil do atleta. Apesar dessa predominância oxidativa, a participação anaeróbia é decisiva em momentos críticos da prova, especialmente na largada e no sprint final, nos quais há necessidade de produção de potência acima do VO₂máx, implicando elevada ativação glicolítica e acúmulo substancial de lactato.

Estudos mais recentes refinam essa análise ao demonstrar que a contribuição glicolítica específica durante provas de 2.000 m pode situar-se entre aproximadamente 7% e 15,5%, refletindo significativa variabilidade interindividual e destacando o papel da taxa máxima de acúmulo de lactato (νLa.max) como marcador funcional do perfil metabólico do atleta. Essa variabilidade sugere que o desempenho no remo não depende apenas da magnitude absoluta das capacidades energéticas, mas também da forma como essas capacidades são distribuídas e mobilizadas ao longo da prova.

Adicionalmente, análises detalhadas da contribuição dos sistemas energéticos indicam que, durante uma prova típica, o sistema ATP-PCr predomina nos primeiros segundos (≈10–15 s), seguido por uma rápida transição para o metabolismo glicolítico e, posteriormente, para uma dominância progressiva do metabolismo oxidativo, que sustenta a maior parte do esforço total . Essa sequência funcional reforça o conceito de integração contínua dos sistemas energéticos, já previamente discutido no contexto geral da fisiologia do exercício.

Outro aspecto fundamental refere-se ao custo energético extremamente elevado do remo. Valores de gasto energético podem atingir cerca de 36 kcal·min⁻¹ durante esforço competitivo, configurando uma das maiores demandas metabólicas entre os esportes predominantemente aeróbios. Em termos aplicados, isso se traduz em necessidades energéticas diárias que podem ultrapassar 6.000–7.000 kcal em períodos de treinamento intenso, refletindo tanto o elevado volume quanto a intensidade das sessões.

Mesmo em intensidades relativamente baixas, o remo apresenta elevada exigência metabólica, com utilização predominante de carboidratos e participação de grande massa muscular (≈70%), o que impõe estresse fisiológico significativo já em zonas consideradas “leves”. Esse aspecto diferencia o remo de outras modalidades de endurance e tem implicações diretas para o planejamento do treinamento e da nutrição esportiva.

A eficiência energética e o custo energético do gesto técnico emergem, ainda, como determinantes críticos do desempenho. A relação entre potência produzida e custo energético do movimento define, em última instância, a velocidade de deslocamento, sendo influenciada por fatores biomecânicos, neuromusculares e metabólicos. Assim, atletas com menor custo energético para uma mesma potência apresentam vantagem competitiva relevante.

No âmbito do controle de carga, essas características tornam o remo um modelo particularmente sensível à interação entre carga externa e interna. O elevado gasto energético, associado à grande dependência de carboidratos e à significativa solicitação glicolítica, exige monitoramento rigoroso da carga para evitar estados de baixa disponibilidade energética, fadiga crônica e queda de desempenho. Nesse sentido, a integração de métricas fisiológicas (VO₂, lactato, frequência cardíaca), perceptivas (RPE) e mecânicas (potência, velocidade) torna-se indispensável para uma prescrição precisa e individualizada.

Além disso, a distribuição da intensidade do treinamento em modelos piramidais ou polarizados, com predominância de estímulos de baixa intensidade, reflete a necessidade de equilibrar o desenvolvimento da capacidade aeróbia com a preservação da integridade fisiológica frente ao elevado estresse metabólico imposto pelas sessões de alta intensidade. A manipulação estratégica da carga, incluindo volume, intensidade e densidade, deve considerar não apenas os sistemas energéticos predominantes, mas também a dinâmica de interação entre eles ao longo do tempo.

Em síntese, o remo de elite constitui um paradigma de integração bioenergética, no qual sistemas anaeróbios e aeróbios operam de forma sinérgica para sustentar elevados níveis de desempenho. A compreensão aprofundada dessas interações, aliada ao monitoramento rigoroso da carga de treinamento, permite a construção de estratégias mais eficientes de periodização, otimizando adaptações fisiológicas e minimizando riscos associados ao treinamento de alta demanda metabólica.

 

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