ANATOMIA DA PERSISTÊNCIA: A ENDURANCE HUMANA ENTRE O TREINO, O TEMPO E O DESTREINAMENTO

por | dez 3, 2025

A fisiologia do ciclismo profissional de endurance é um território onde o corpo humano parece negociar diariamente com seus próprios limites. Cada pedalada é, ao mesmo tempo, uma expressão de técnica, biologia e tempo. É um esporte em que milhares de horas de treino se condensam em decisões tomadas em segundos — e em que a adaptação crônica convive com a exaustão quase ritualizada das grandes voltas. Ao longo de uma temporada, um ciclista da divisão World Tour percorre aproximadamente 35.000 km somando treinos e competições, incluindo cerca de 90 dias efetivos de corrida. Nas grandes voltas, distribuídas em três semanas, esses atletas enfrentam etapas planas de altíssima velocidade, trechos semimontanhosos, escaladas prolongadas e contrarrelógios que exigem precisão técnica absoluta. Sustentar potências médias entre 2,7 e 3,5 W·kg⁻¹ durante horas, dia após dia, é a regra basal, intercalada com surtos de esforço supra-máximo de segundos a minutos, típicos de ataques, acelerações estratégicas, sprints ou trechos críticos de subida.

As análises de power profile reforçam essa diversidade: etapas montanhosas exigem potências elevadas e sustentadas acima de 10 minutos; já etapas planas concentram picos muito altos em janelas inferiores a 90 segundos, geralmente associados ao posicionamento do pelotão, perseguições ou sprints. É um esporte em que a duração e a natureza do esforço variam com enorme amplitude, exigindo do atleta uma capacidade incomum de alternar rapidamente entre estados metabólicos. Do ponto de vista fisiológico, esse desempenho apoia-se em três determinantes principais: o consumo máximo de oxigênio (VO₂máx), o limiar de lactato e a eficiência mecânica. O VO₂máx define o teto de geração aeróbia de energia; o limiar indica qual fração desse teto pode ser sustentada de forma prolongada; e a eficiência determina a conversão do consumo de oxigênio em potência útil. Em ciclistas profissionais, esses parâmetros atingem níveis excepcionais: limiares frequentemente acima de 80–85% do VO₂máx e eficiências mecânicas que podem superar 20–23% em intensidades submáximas típicas de competição.

Essas capacidades não são apenas abstratas. Em estudo recente com 28 ciclistas de nível World Tour, avaliados tanto em teste incremental até a exaustão quanto em uma sessão aeróbia prolongada de 180 km, observou-se que o teste incremental elevou de duas a três vezes as concentrações sanguíneas de lactato e succinato, revelando um estado misto de glicólise acelerada e oxidação de ácidos graxos. Já a sessão prolongada, realizada majoritariamente abaixo do limiar de lactato, aumentou de maneira ainda mais pronunciada a mobilização de ácidos graxos e acilcarnitinas, sem acúmulo relevante de lactato — marcando uma condição de forte predominância lipídica.Quando analisadas em situações reais de prova, etapas de sprint exibiram assinaturas metabólicas mais glicolíticas, enquanto etapas de montanha apresentaram perfis mais oxidativos. Uma maior capacidade de oxidar ácidos graxos associou-se diretamente a melhor desempenho competitivo, reforçando que o ciclista de elite depende não apenas de um VO₂máx elevado, mas também de extraordinária flexibilidade metabólica para alternar entre combustíveis e poupar glicogênio durante esforços prolongados.

Ao longo de anos, o padrão de treino contribui decisivamente para moldar esse fenótipo. Avaliações retrospectivas de quatro temporadas de uma equipe profissional — incluindo homens e mulheres — mostram volumes anuais expressivos, majoritariamente realizados em zonas de baixa e moderada intensidade. O tempo em zonas altas é menor, mas estrategicamente inserido para induzir ganhos máximos cardiorrespiratórios e sustentação de picos decisivos de potência. Esse arranjo se alinha ao modelo de treino polarizado, em que grande parte do volume ocorre abaixo do limiar anaeróbio, enquanto uma fração pequena, porém crucial, é dedicada a esforços acima do limiar. Nenhum palco representa melhor essa integração de sistemas do que o Tour de France, talvez a mais sofisticada demonstração de resistência humana já institucionalizada. Desde 1903, o Tour evoluiu de aventuras quase artesanais de mais de 300 km para uma estrutura rigorosamente planejada, somando cerca de 3.500 km ao longo de 21 etapas e acumulando entre 90 e 100 horas de esforço em três semanas. Ainda assim, a essência fisiológica permanece: o Tour impõe um gasto energético sustentado quatro a cinco vezes acima do metabolismo basal diário — comparável ao de aves migratórias durante longos períodos de voo.

A alternância entre etapas planas, contrarrelógios e montanhas obriga o ciclista a operar em regimes fisiológicos contrastantes. Em etapas planas, o efeito do pelotão reduz o custo metabólico em até 40%, mantendo intensidades abaixo de 70% do VO₂máx, apesar de velocidades médias próximas de 45 km/h. No contrarrelógio, um ambiente sem proteção aerodinâmica e sem margem para variação de ritmo, o ciclista opera entre 90 e 95% do VO₂máx durante quase uma hora, frequentemente acima de 350–400 W. Nas montanhas, o limite é ditado pela gravidade: escaladas de 30 a 60 minutos exigem razões potência–peso acima de 6 W·kg⁻¹, com o atleta trabalhando próximo de 90% do VO₂máx, frequentemente sob hipoxia moderada acima de 1.800 m.

O perfil fisiológico dos competidores reflete essas demandas extremas. Valores de VO₂máx entre 70 e 80 mL·kg⁻¹·min⁻¹ são comuns, e finalistas ou vencedores frequentemente ultrapassam 80 mL·kg⁻¹·min⁻¹. Eficiências mecânicas acima de 22–24% também são relatadas entre escaladores e especialistas em contrarrelógio. Tão impressionante quanto a magnitude desses valores é a capacidade de sustentá-los após 10 a 15 dias consecutivos de desgaste fisiológico acumulado. Estudos mostram que ciclistas conseguem manter — e às vezes aumentar — a potência média nas etapas finais mesmo após 80–90 horas de esforço em menos de duas semanas. Essa resiliência depende também da habilidade singular de ingerir e oxidar grandes quantidades de carboidratos — frequentemente entre 90 e 120 g/h — sem prejuízo gastrointestinal. Essa capacidade protege as reservas de glicogênio e evita quedas bruscas de massa corporal. A comparação entre um ciclista World Tour e um ciclista recreacional de 58 anos que completou o Tour reforça essa diferença funcional: enquanto o profissional concluiu a prova em 87 horas a 3,45 W·kg⁻¹, o recreacional levou 191 horas a 1,50 W·kg⁻¹; ainda assim, ambos atingiram o mesmo teto relativo de gasto energético diário (≈4× o metabolismo basal). A diferença residiu na intensidade sustentável, na distribuição de zonas de treino ao longo da vida e na eficiência mecânica.

Dentro desse panorama, a trajetória de alguns atletas após a aposentadoria revela aspectos fascinantes da fisiologia humana. Miguel Indurain, cinco vezes vencedor do Tour na década de 1990, tornou-se conhecido por sua capacidade aeróbia monumental, sua cadência fluida e seu estilo de corrida economicamente impecável. Avaliado catorze anos após deixar o ciclismo profissional, já aos 46 anos e com 92 kg, Indurain apresentava VO₂máx de 57,4 mL·kg⁻¹·min⁻¹, potência máxima de 450 W e limiar de lactato a 329 W (~81% do VO₂máx). Sua eficiência mecânica atingia 22,3% a 350 W — valores comparáveis aos de ciclistas profissionais ativos. Em relação ao auge, estimou-se um declínio relativo de 12–15% por década em valores absolutos e de 19–26% quando normalizados pela massa corporal, sugerindo que parte relevante da queda se deveu ao ganho de peso, e não a uma deterioração profunda da maquinaria aeróbia. A explicação é simples: ao se aposentar, Indurain não parou de pedalar. Manteve entre 6.000 e 8.000 km por ano, participando de eventos recreativos de longa distância e preservando um estímulo regular ao sistema cardiorrespiratório.

Ainda mais extraordinário é o caso de Robert Marchand, ciclista francês que se tornou um símbolo da longevidade atlética. Aos 101 anos, percorreu 24,25 km no recorde de 1 hora em pista. Dois anos depois, aos 103, ampliou sua marca para 26,93 km — um aumento de 11%. Mantinha cerca de 5.000 km/ano de treino, em padrão polarizado simples: aproximadamente 80% do volume em intensidade leve e 20% em esforço difícil. A cadência variava entre 50 e 70 rpm, chegando posteriormente a 90 rpm. Nesse período, seu VO₂máx aumentou de 31 para 35 mL·kg⁻¹·min⁻¹ e sua potência de pico saltou de 90 para 125 W. A ventilação máxima aumentou 23%, o quociente respiratório máximo elevou-se de 1,03 para 1,14 e sua tolerância ao esforço máximo melhorou de forma notável — um feito raro em idade tão avançada. Esses exemplos demonstram que atletas com níveis excepcionais de condicionamento desenvolvem uma espécie de “reserva funcional” que pode ser preservada durante décadas, desde que subsista uma dose mínima de estímulo adequado, especialmente em intensidade. O declínio fisiológico não é abrupto: é graduado, relativamente lento e, por vezes, parcialmente reversível.

O conceito de destreinamento ajuda a explicar esse comportamento. Ele descreve a perda parcial ou completa das adaptações provocadas pelo treino quando o estímulo é reduzido ou cessado. Em até quatro semanas de destreinamento, observa-se queda do VO₂máx, redução do volume plasmático, diminuição do volume sistólico e aumento compensatório da frequência cardíaca. A capacidade ventilatória se deteriora, e o desempenho de endurance diminui de maneira mensurável. Metabolicamente, ocorre maior dependência de carboidratos, aumento do quociente respiratório em cargas submáximas, queda da atividade de enzimas envolvidas na mobilização de ácidos graxos, redução no conteúdo muscular de GLUT-4 e diminuição dos estoques de glicogênio. A densidade capilar e as atividades enzimáticas mitocondriais também se reduzem, comprometendo a geração de ATP aeróbico.

Quando a pergunta muda de “o que se perde” para “quanto é preciso para não perder”, os dados mostram que o organismo é surpreendentemente econômico. A manutenção exige menos volume do que a indução de melhorias, desde que a intensidade seja preservada. Em indivíduos treinados, o desempenho de endurance pode ser mantido por até quinze semanas com apenas duas sessões semanais ou com redução de 33–66% do volume por sessão, desde que a intensidade permaneça semelhante à usual. Para força e massa muscular, jovens podem manter ganhos com uma sessão semanal de alta intensidade; idosos requerem duas sessões semanais para preservar massa magra. Indurain e Marchand ilustram essa lógica: ambos diminuíram substancialmente o volume ao longo dos anos, mas preservaram intensidade relativa, cadência, estímulo cardiovascular e regularidade — evitando, assim, a espiral descendente típica do destreinamento completo.

Em síntese, o ciclismo de endurance de nível profissional é um encontro raro entre fisiologia extrema, arquitetura inteligente de treino e metabolismo altamente plástico. Ele revela não apenas como atletas alcançam níveis excepcionais de desempenho, mas também como podem preservá-los, de forma atenuada, por décadas. A interação entre treino, tempo e destreinamento mostra que a perda das adaptações não é um destino inevitável; ela é, em grande parte, negociável. E quando o corpo continua a ser lembrado — mesmo que de forma mais suave — de quem ele já foi, ele responde com surpreendente fidelidade.

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