Existe um divisor sutil, quase imperceptível, que separa a excelência do esgotamento. Este ensaio analisa a sintomatologia da Síndrome de Overtraining (OTS) correlacionando-a com a Deficiência Relativa de Energia no Esporte (RED-S). Neste sentido, a reduzida disponibilidade energética (EA) e a escassez crônica de carboidratos (CHO) costumam ser frequentemente negligenciados por atletas que buscam controlar o peso através de manipulação nutricional.
Entre a Carga e o Custo
Na obsessiva busca por melhorias no rendimento, atletas e treinadores frequentemente transitam em terrenos instáveis. A sobrecarga crônica, seja ela imposta por incrementos de volume e/ou intensidade ou por manipulações nutricionais extremas, poderá induzir não apenas a OTS, mas também um quadro insidioso e muitas vezes negligenciado: a RED-S — uma síndrome com raízes metabólicas profundas e repercussões multissistêmicas.
São muitas as evidências de que a fadiga aguda mal recuperada é capaz de evoluir para o Functional Overreaching (FOR), adentrar o território do Non-Functional Overreaching (NFOR), e culminar na OTS. Ao mesmo tempo, a restrição calórica — deliberada ou inadvertida — desequilibra o eixo hipotálamo-hipofisário-gonadal, gerando uma cascata hormonal característica da RED-S. Entre ambas, os sintomas se entrelaçam, confundem, e silenciosamente corroem o rendimento e a saúde do atleta.
Síndromes que se Espelham: OTS e RED-S sob o Mesmo Céu Cinzento
Embora suas origens pareçam distintas, OTS e RED-S convergem em diversos aspectos clínicos: queda de desempenho inexplicada, alterações de humor, disfunções hormonais, distúrbios do sono e redução da imunidade. Ao todo, 12 dos 13 domínios sintomatológicos avaliados em ambas se sobrepõem — o único ponto de distinção sendo a densidade óssea, mais frequentemente comprometida na RED-S.
A ausência de biomarcadores validados para OTS e os desafios metodológicos para estimar com precisão a oferta de energia (EA) tornam esse diagnóstico um exercício de exclusão e sensibilidade clínica. Neste contexto, o protocolo do Comitê Olímpico Internacional para RED-S fornece uma base inicial, mas ainda insuficiente frente à complexidade individual de cada atleta.
Sob o Prisma Energético: o Papel da Disponibilidade Calórica e da Oferta de Carboidratos
Uma análise crítica de múltiplos estudos revelou que em sua maioria ocorria queda significativa na EA (variando de 15% a 100%) ao longo do tempo ou entre grupos, sugerindo que muitos quadros diagnosticados como OTS poderiam, na realidade, estar mascarando RED-S não reconhecida. Em média, as reduções de EA giraram em torno de 10 kcal/kg de massa livre de gordura/dia — valores suficientes para comprometer o equilíbrio endócrino, imunológico e neuromuscular.
A disponibilidade de carboidratos (CHO), isoladamente, também emergiu como um fator-chave. Em condições isoenergéticas, a escassez crônica de CHO demonstrou induzir prejuízos funcionais compatíveis com OTS, além de provocar alterações hormonais típicas da “tríade da mulher atleta”, como queda nos níveis de leptina, T3 e LH. Assim, a privação de CHO, mesmo sem déficit energético total, revela-se um modulador hormonal e metabólico de primeira ordem especialmente no gênero feminino.
Transtornos do Comportamento Alimentar: O Fator Invisível
Por trás de muitas manifestações clínicas de RED-S e OTS esconde-se uma relação disfuncional com o alimento. Seja motivada por pressão estética, idealização corporal ou imposições de modalidade, a ingestão insuficiente nem sempre é acidental. Revisões sistemáticas mostram uma relação frágil entre gasto energético e ingestão em populações ativas — sugerindo que a cultura alimentar esportiva, mais do que a fisiologia isolada, rege a sustentabilidade metabólica do atleta.
A realidade prática mostra que não basta ter calorias disponíveis: é preciso tempo, contexto e permissão social para consumi-las. Assim, grupos de treino com ethos restritivo, horários inflexíveis e ausência de suporte nutricional adequado, constituem terreno fértil para a erosão energética crônica.
Entre Hormônios e Hipóteses: Onde Termina um e Começa o Outro?
A OTS também é frequentemente associada a disfunções no eixo HPA (hipotálamo–hipófise–adrenal), enquanto a RED-S compromete o eixo HPG (hipotálamo–hipófise–gonadal). Porém, ambos convergem no efeito final: adaptação hormonal atenuada, performance comprometida e perda da homeostase interna. Estímulos intensos e repetidos, aliados à incapacidade de reparar e reabastecer, desorganizam o metabolismo — e o atleta não rende, não entende e, por vezes, não volta.
Considerações Finais: Um Diagnóstico que Exige Escuta
A linha entre o treinamento excessivo e o subabastecimento energético é tênue, tortuosa e frequentemente invisível aos olhares menos atentos. O que parece OTS pode ser RED-S. E o que parece falta de treino pode ser, na verdade, falta de substrato.
Prevenir é, antes de tudo, escutar. Se diagnosticar é integrar saberes, tratar é restituir o tempo perdido e o equilíbrio quebrado.
As evidências reforçam a necessidade urgente de programas educacionais que abordem adequadamente a nutrição esportiva. A baixa ingestão de energia e carboidratos parece decorrer não apenas da prática alimentar, mas também do desconhecimento já que estudos prévios têm revelado que atletas que receberam formação específica sobre a Tríade da Mulher Atleta e RED-S demonstraram maior compreensão e autoconfiança sobre o tema.
Torna-se claro que essa lacuna educacional não se restringe às atletas. Profissionais de suporte, como treinadores, preparadores físicos e fisiologistas, muitas vezes carecem de treinamento formal sobre o reconhecimento e rastreio de sinais precoces de RED-S. A ausência de nutricionistas esportivos nos departamentos atléticos agrava ainda mais o cenário, tornando urgente o investimento institucional em formação continuada e estrutura técnica adequada. Estudos mostram que a simples adição de sessões educativas com nutricionistas melhora significativamente o conhecimento técnico dos treinadores e a confiança em orientar suas atletas quanto às demandas nutricionais.
Em síntese, os dados apontam para a existência concreta de RED-S entre atletas de endurance (particularmente, mulheres) e que a baixa taxa metabólica de repouso representa marcador mais estável do que a EA isolada, dada a instabilidade de estimativas indiretas de gasto de energia com o exercício. Investigações futuras devem investir na acurácia dessas medições e na criação de estratégias educacionais que alcancem tanto atletas quanto os profissionais que as acompanham, promovendo uma cultura de saúde e desempenho sustentáveis no esporte de endurance.
Referências:
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