VO₂ MÁXIMO, RENDIMENTO AERÓBICO E A ARQUITETURA GENÉTICA DA PERFORMANCE: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DOS MECANISMOS FISIOLÓGICOS E MOLECULARES

por | abr 28, 2026

A aptidão cardiorrespiratória, expressa classicamente pelo consumo máximo de oxigênio (VO₂máx), constitui um dos mais robustos preditores integrativos da capacidade funcional aeróbica, da performance esportiva de endurance e, simultaneamente, da saúde metabólica e cardiovascular em humanos. Sua natureza multifatorial decorre da interação dinâmica entre variáveis centrais — como débito cardíaco e transporte de oxigênio — e variáveis periféricas, incluindo densidade capilar, conteúdo mitocondrial e eficiência oxidativa do músculo esquelético. Nesse contexto, embora o treinamento físico seja o principal modulador fenotípico, evidências acumuladas nas últimas décadas indicam que a variabilidade interindividual tanto no VO₂máx basal quanto na sua responsividade ao treinamento apresenta substancial componente hereditário, com estimativas de herdabilidade frequentemente situadas em torno de 50%.

Do ponto de vista fisiológico, o VO₂máx representa a taxa máxima de utilização de oxigênio durante exercício incremental envolvendo grandes grupos musculares, refletindo a integração entre os sistemas cardiovascular, respiratório e muscular. Sua magnitude é determinada por fatores como volume sistólico, concentração de hemoglobina, fluxo sanguíneo periférico e capacidade oxidativa mitocondrial. Entretanto, o desempenho aeróbico não se restringe a esse parâmetro isolado. Ele emerge da interação entre três pilares clássicos — VO₂máx, limiar anaeróbio e economia de movimento — acrescidos, mais recentemente, do conceito de resiliência fisiológica, que descreve a capacidade de sustentar desempenho sob acúmulo de fadiga. Ainda assim, o VO₂máx permanece como o componente central que define o teto fisiológico da performance aeróbica.

A variabilidade na adaptação ao treinamento aeróbico constitui um dos fenômenos mais intrigantes da fisiologia do exercício. Indivíduos submetidos a protocolos idênticos podem apresentar respostas extremamente heterogêneas, com alguns classificados como “high responders” e outros como “low responders”. Essa heterogeneidade é parcialmente explicada por determinantes genéticos. Uma revisão sistemática identificou cerca de 97 genes associados à treinabilidade do VO₂máx, sugerindo que indivíduos com maior número de alelos favoráveis apresentam respostas adaptativas superiores. Contudo, a reprodutibilidade desses achados ainda é limitada, refletindo a complexidade poligênica e a interação gene-ambiente que caracteriza esse fenótipo.

No âmbito da genética do desempenho, a literatura evidencia que centenas de polimorfismos em diferentes genes contribuem, de forma incremental e frequentemente modesta, para a performance aeróbica. Estudos recentes identificaram mais de 250 variantes associadas ao status atlético, sendo que apenas uma fração demonstra consistência entre investigações independentes. Essa arquitetura poligênica implica que nenhum gene isolado determina o desempenho, mas sim a combinação de múltiplos loci, cada qual contribuindo com pequena parcela da variância fenotípica.

Entre os genes mais investigados, destacam-se aqueles envolvidos na regulação cardiovascular, no metabolismo energético e na função muscular. Polimorfismos em genes como ACE, NOS3, BDKRB2, PPARGC1A e ACTN3 têm sido amplamente estudados por sua influência sobre variáveis como eficiência hemodinâmica, angiogênese, biogênese mitocondrial e composição de fibras musculares. Especificamente, meta-análises indicam que variantes nos genes BDKRB2 e NOS3 apresentam maior prevalência em atletas de endurance, sugerindo um papel relevante na modulação do fluxo sanguíneo e da vasodilatação durante o exercício.

Entretanto, a evidência não é uniforme. Estudos de grande escala apontam ausência de associação significativa entre variantes clássicas, como ACE e ACTN3, e o desempenho em esportes de endurance quando analisadas em conjunto. Esse aparente paradoxo reforça a noção de que o desempenho atlético não pode ser explicado por marcadores genéticos isolados, sendo resultado de redes complexas de interação molecular e fisiológica. Adicionalmente, investigações com escores genotípicos totais demonstram que perfis genéticos semelhantes podem ser encontrados tanto em atletas de elite quanto em indivíduos não treinados, indicando que fatores ambientais, como treinamento sistemático, continuam sendo determinantes cruciais.

No nível molecular, o exercício aeróbico induz alterações profundas na expressão gênica, afetando vias relacionadas ao metabolismo energético, inflamação e remodelação tecidual. Estudos transcriptômicos demonstram que sessões agudas de exercício promovem modulação significativa de genes envolvidos na oxidação de substratos, sinalização celular e adaptação mitocondrial, inclusive em tecidos não diretamente recrutados. Essas respostas evidenciam a plasticidade do genoma frente ao estímulo do exercício, destacando o papel da regulação epigenética como mediadora entre genótipo e fenótipo.

Outro aspecto relevante refere-se à economia de movimento e à eficiência biomecânica, componentes críticos da performance de endurance. Polimorfismos como o do gene COL5A1 têm sido associados à rigidez tendínea e, consequentemente, à economia de corrida, influenciando diretamente o custo energético do movimento. Esse achado ilustra como fatores estruturais, modulados geneticamente, podem impactar variáveis fisiológicas e, em última instância, o desempenho.

A contribuição genética para o desempenho atlético, embora significativa, deve ser interpretada dentro de um modelo integrativo. Estimativas sugerem que até dois terços da variância no status atlético possam ser atribuídos a fatores genéticos, enquanto o restante é determinado por treinamento, nutrição, fatores psicossociais e ambientais. Ademais, a expressão fenotípica dessas variantes é altamente dependente do contexto ambiental, o que limita a aplicabilidade de testes genéticos isolados para predição de talento esportivo.

Nesse cenário, emerge a necessidade de abordagens multiômicas que integrem genômica, transcriptômica, proteômica e metabolômica, permitindo uma compreensão mais abrangente dos mecanismos que sustentam a performance aeróbica. A interação entre essas camadas biológicas, aliada a fatores externos, constitui o verdadeiro determinante do fenótipo atlético. Consequentemente, a personalização do treinamento baseada em perfis genéticos ainda se encontra em estágio incipiente, demandando validação científica robusta antes de sua aplicação prática.

Em síntese, o VO₂máx e o rendimento aeróbico representam fenótipos complexos, modulados por uma intrincada rede de fatores fisiológicos e genéticos. Embora avanços significativos tenham sido alcançados na identificação de variantes associadas ao desempenho, a natureza poligênica e multifatorial desses fenótipos impõe limites à sua predição baseada exclusivamente em genética. O futuro da ciência do esporte reside na integração entre biologia molecular, fisiologia e ciência do treinamento, com vistas à otimização individualizada da performance e à promoção da saúde.

 

REFERÊNCIAS

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