Sono, Regulação Neuroendócrina e Autonômica na Supercompensação do Atleta de Endurance: Paradoxos do Predomínio Parassimpático no Overtraining

por | abr 5, 2026

O sono constitui um dos pilares biológicos fundamentais para a recuperação e adaptação ao treinamento físico, assumindo papel central na otimização do desempenho esportivo, particularmente em atletas de endurance submetidos a elevadas cargas de estresse fisiológico e psicológico. Evidências contemporâneas demonstram que o sono não apenas restaura a homeostase sistêmica, mas também atua como um modulador ativo dos processos de supercompensação, integrando mecanismos neuroendócrinos, imunológicos e autonômicos que sustentam adaptações positivas ao treinamento.

No contexto do treinamento de endurance, caracterizado por elevado volume e repetição de estímulos submáximos prolongados, o equilíbrio entre carga e recuperação torna-se determinante para a evolução do desempenho. O sono emerge como a principal estratégia de recuperação, influenciando diretamente a síntese proteica, a secreção de hormônios anabólicos, a plasticidade neural e a regulação do sistema nervoso autônomo. Intervenções que promovem a extensão do sono, seja por aumento do tempo total noturno ou por cochilos estratégicos, demonstram efeitos consistentes na melhora do desempenho físico e cognitivo, incluindo tempo de reação, humor, percepção de esforço e capacidade de sustentar esforços prolongados. Adicionalmente, a extensão do sono tem sido associada à manutenção do desempenho de endurance em condições de carga repetida, enquanto a restrição do sono compromete significativamente a performance e a vigilância psicomotora.

Do ponto de vista fisiológico, o sono profundo (NREM) favorece um ambiente anabólico, com aumento da liberação de hormônio do crescimento, redução do cortisol e predominância da atividade parassimpática. Essa condição facilita processos de reparo tecidual, consolidação de memória motora e restauração autonômica. Entretanto, o sistema não opera de forma linear. A qualidade e a arquitetura do sono são altamente sensíveis ao estado de excitação central, ao equilíbrio autonômico e à integridade dos circuitos neuroendócrinos.

Nesse contexto, emerge um paradoxo fisiológico relevante: atletas em estado de overtraining parassimpático frequentemente apresentam sinais clássicos de predominância vagal — como bradicardia acentuada e elevada variabilidade da frequência cardíaca — concomitantemente a distúrbios do sono, incluindo fragmentação, redução da eficiência e sensação subjetiva de sono não reparador. Essa aparente contradição revela que o aumento do tônus vagal não necessariamente corresponde a um estado de recuperação funcional adequada.

A compreensão desse fenômeno exige uma abordagem integrada. O chamado “predomínio parassimpático” no overtraining deve ser interpretado não como um estado de alta eficiência vagal, mas como uma condição de hiporreatividade autonômica central, caracterizada por redução da responsividade simpática, alteração do controle barorreflexo e disfunção dos circuitos hipotalâmicos. Nessa condição, o organismo perde a capacidade de modular adequadamente os estados de excitação e recuperação, resultando em um sistema rigidamente “desligado”, porém instável.

A privação de sono ou sua má qualidade desempenha papel central nessa desregulação. A literatura demonstra que distúrbios do sono aumentam a atividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, elevam os níveis de cortisol e promovem um estado de hiperexcitação cortical, mesmo na presença de sinais periféricos de dominância vagal. Além disso, a privação de sono está associada a alterações na liberação de neuromoduladores como a ocitocina, com efeitos complexos e dependentes do sexo, correlacionando-se com aumento da ansiedade e da sensibilidade à dor. Esse aumento de ocitocina em contextos de estresse e privação de sono não traduz um estado de recuperação, mas sim uma resposta adaptativa incompleta e potencialmente disfuncional.

Do ponto de vista neurobiológico, o sono adequado depende de uma alternância dinâmica entre sistemas de ativação e inibição, envolvendo estruturas como hipotálamo, tronco encefálico, sistema límbico e córtex pré-frontal. No overtraining, essa alternância encontra-se comprometida. A redução do drive simpático não é acompanhada por uma organização eficiente do sono, pois há persistência de hiperatividade em circuitos relacionados ao estresse, à ansiedade e à antecipação cognitiva, frequentemente exacerbados por fatores como carga de treino elevada, competição e demandas psicossociais.

Adicionalmente, a relação entre sono e sistema imune reforça esse cenário. A má qualidade do sono está associada a alterações inflamatórias e imunológicas, contribuindo para fadiga persistente e maior risco de lesões, enquanto intervenções de extensão do sono demonstram efeitos benéficos sobre marcadores de estresse fisiológico e função imune. Assim, a incapacidade de atingir um sono restaurador em estados de overtraining representa não apenas uma consequência, mas também um perpetuador do desequilíbrio sistêmico.

Portanto, a coexistência de bradicardia, elevado tônus vagal e distúrbios do sono em atletas de endurance deve ser interpretada como um sinal de disfunção autonômica e neuroendócrina, e não como evidência de recuperação otimizada. O sono, nesse contexto, deixa de ser um marcador passivo e passa a ser um indicador sensível da integridade do sistema adaptativo. A restauração da qualidade do sono, mais do que o aumento isolado de sua duração, torna-se um objetivo central para reestabelecer a capacidade adaptativa, reequilibrar o sistema nervoso autônomo e permitir que os processos de supercompensação ocorram de forma eficiente.

 

Referências

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