Restrição de Fluxo Sanguíneo no Treinamento de Endurance: Bases Fisiológicas, Adaptações Integradas e Implicações para o Rendimento Aeróbio

por | fev 24, 2026

O treinamento com restrição de fluxo sanguíneo (Blood Flow Restriction – BFR), originalmente desenvolvido no Japão sob a denominação Kaatsu training, emergiu nas últimas décadas como uma das intervenções fisiológicas mais relevantes na interface entre treinamento de força, reabilitação e desempenho em endurance. Embora inicialmente associado à hipertrofia muscular sob baixas cargas mecânicas, evidências contemporâneas demonstram que a aplicação do BFR durante exercícios aeróbios ou intervalados induz um conjunto singular de adaptações neuromusculares, vasculares e metabólicas capazes de modificar determinantes clássicos do rendimento em esportes de endurance. A literatura recente indica que o BFR não deve ser interpretado apenas como uma estratégia de sobrecarga periférica, mas como um potente modulador da integração entre oferta, extração e utilização de oxigênio no músculo ativo.

Do ponto de vista fisiológico, o princípio central do BFR consiste na aplicação de pressão externa proximal ao membro ativo, reduzindo parcialmente o fluxo arterial e limitando significativamente o retorno venoso. Esse ambiente hemodinâmico promove hipóxia muscular transitória, acúmulo metabólico e aumento do estresse mecano-metabólico intramuscular mesmo sob intensidades relativamente baixas de exercício. Tal condição reproduz parcialmente o ambiente fisiológico observado durante exercícios de alta intensidade, permitindo que estímulos adaptativos tradicionalmente dependentes de elevadas cargas metabólicas ocorram em intensidades submáximas. Estudos controlados demonstram que exercícios aeróbios realizados com BFR elevam simultaneamente o recrutamento de fibras tipo II, a ativação neural e a sinalização intracelular associada à adaptação muscular, fenômeno incomum em protocolos clássicos de endurance contínuo.

A relevância desse mecanismo para o desempenho aeróbio torna-se evidente quando se analisam meta-análises recentes envolvendo atletas e indivíduos treinados. A combinação de treinamento de endurance com BFR produz aumentos moderados no VO₂máx e ganhos substanciais de força de membros inferiores, variável frequentemente negligenciada, mas altamente determinante para economia de corrida e eficiência mecânica em modalidades de resistência prolongada. Evidências quantitativas indicam efeitos moderados sobre a capacidade aeróbia e melhorias consistentes no desempenho geral quando comparado ao mesmo treinamento sem oclusão vascular.

Um dos aspectos mais relevantes da metodologia reside na indução de adaptações angiogênicas periféricas. A hipóxia local desencadeia aumento da expressão de fatores moleculares como HIF-1α, VEGF, VEGFR-2, eNOS e PGC-1α, todos diretamente envolvidos na biogênese capilar e na regulação do metabolismo oxidativo muscular. Meta-análise focada nesses marcadores demonstrou aumento significativo da expressão gênica relacionada à angiogênese após exercícios com BFR, sugerindo expansão funcional da rede microvascular e melhora potencial da difusão de oxigênio no músculo ativo. Esse fenômeno possui implicações diretas para o endurance, uma vez que a limitação periférica de entrega de O₂ representa um dos principais determinantes da fadiga em exercícios prolongados.

Paralelamente, adaptações vasculares sistêmicas também parecem ocorrer. O aumento do shear stress arterial durante os ciclos de oclusão e reperfusão estimula a função endotelial e a biodisponibilidade de óxido nítrico, promovendo melhora da vasodilatação dependente do endotélio. Revisões sistemáticas indicam efeitos positivos ou neutros do BFR sobre sistemas cardiovascular e endócrino, sem evidência consistente de efeitos adversos quando protocolos adequados são utilizados. Estudos adicionais demonstram melhora da função endotelial comparada ao exercício convencional, reforçando a hipótese de remodelamento vascular induzido pela técnica.

Sob a perspectiva metabólica, o BFR altera profundamente a dinâmica da fadiga periférica. Investigações mecanísticas recentes utilizando Doppler vascular e espectroscopia no infravermelho próximo mostraram que o treinamento intervalado com restrição de fluxo aumenta o desempenho mecânico máximo e reduz o desenvolvimento de fadiga muscular para cargas equivalentes. Curiosamente, tais melhorias ocorreram sem aumento adicional da capacidade respiratória mitocondrial, sugerindo que o ganho de performance decorre principalmente de otimizações hemodinâmicas e neuromusculares periféricas, e não exclusivamente de adaptações mitocondriais clássicas do endurance.

Esse achado possui profunda implicação conceitual: o BFR parece deslocar parcialmente o modelo tradicional de adaptação ao endurance — centrado predominantemente em adaptações centrais cardiovasculares — para um modelo onde a eficiência periférica assume papel dominante. A maior perfusão reativa, menor ativação do metaboreflexo muscular e melhor manutenção da homeostase intramuscular reduzem o custo fisiológico relativo do exercício prolongado, aumentando o tempo até a exaustão.

Adicionalmente, estudos experimentais demonstram que exercícios aeróbios de baixa intensidade combinados ao BFR podem promover simultaneamente hipertrofia muscular e aumento do VO₂máx, adaptação raramente observada em um único modo de treinamento devido ao clássico fenômeno de interferência entre força e endurance. Protocolos de ciclismo leve com oclusão vascular produziram aumentos significativos no VO₂máx e no tempo até a exaustão mesmo com volumes de treino substancialmente menores.

No contexto aplicado ao esporte de alto rendimento, revisões recentes indicam que o BFR melhora múltiplos componentes da aptidão física — incluindo força, potência, velocidade e resistência — especialmente quando utilizado como estratégia complementar durante períodos de redução de carga mecânica, reabilitação ou manutenção competitiva.

Entretanto, análises focadas exclusivamente em atletas altamente treinados sugerem que os ganhos adicionais sobre programas tradicionais podem ser modestos, indicando que o BFR atua mais como amplificador adaptativo em contextos específicos do que como substituto do treinamento convencional.

Dessa forma, a interpretação contemporânea do BFR no endurance aponta para três eixos adaptativos integrados: (i) amplificação do estresse metabólico periférico sob baixa carga externa, (ii) remodelamento vascular e aumento da eficiência de entrega de oxigênio, e (iii) redução da fadiga neuromuscular durante esforços sustentados. A convergência desses mecanismos sugere que a metodologia pode melhorar a economia de exercício, aumentar a tolerância ao esforço e otimizar a relação entre carga mecânica e estímulo fisiológico — característica particularmente relevante para atletas submetidos a elevados volumes de treinamento anual.

Em síntese, o treinamento com restrição de fluxo sanguíneo representa uma intervenção capaz de redefinir estratégias contemporâneas de preparação em endurance ao permitir adaptações típicas de alta intensidade com menor estresse estrutural. Seu maior potencial parece residir não apenas no aumento direto do VO₂máx, mas na modificação da fisiologia periférica do exercício, especialmente na interação entre perfusão muscular, recrutamento neural e resistência à fadiga metabólica. Assim, o BFR emerge como ferramenta estratégica para otimização do rendimento aeróbio, recuperação funcional e periodização moderna do treinamento de resistência.

Complemento:

Restrição de Fluxo Sanguíneo, Eficiência Bioenergética e Durabilidade no Endurance: Integração entre Economia Mecânica, Cinética do VO₂ e Regulação Hemodinâmica Muscular

A compreensão moderna do desempenho em endurance evoluiu substancialmente além da interpretação clássica centrada exclusivamente no VO₂máx. Atualmente, reconhece-se que o rendimento prolongado emerge da interação dinâmica entre eficiência mecânica, estabilidade metabólica, controle hemodinâmico periférico e resistência ao desenvolvimento progressivo da fadiga. Nesse contexto, o treinamento com restrição de fluxo sanguíneo (BFR) adquire relevância conceitual ampliada, pois atua simultaneamente sobre múltiplos determinantes fisiológicos que sustentam o desempenho prolongado.

BFR e Economia de Exercício: Redução do Custo Metabólico do Trabalho Mecânico

A economia de movimento — definida como o consumo de oxigênio necessário para sustentar determinada carga externa — constitui um dos preditores mais robustos do desempenho em atletas altamente treinados. Melhorias na economia frequentemente explicam ganhos competitivos mesmo na ausência de alterações significativas no VO₂máx.

O BFR parece influenciar diretamente esse determinante por meio de adaptações periféricas específicas. A exposição repetida à hipóxia local induz maior recrutamento precoce de unidades motoras de alto limiar durante exercícios submáximos, promovendo adaptações neurais e musculares que posteriormente reduzem a necessidade relativa de recrutamento para a mesma potência mecânica. Consequentemente, ocorre diminuição do custo neural e metabólico do movimento.

Além disso, o aumento da densidade capilar e da responsividade vasodilatadora melhora a correspondência entre perfusão e demanda metabólica intramuscular. Essa otimização da distribuição regional do fluxo sanguíneo reduz heterogeneidades na extração de oxigênio — fenômeno reconhecido como importante limitador da eficiência aeróbia em exercícios prolongados. Assim, o BFR pode ser interpretado como um modulador da chamada eficiência periférica de entrega-utilização de O₂, componente central da economia de corrida e ciclismo.

Os achados mecanísticos recentes demonstram que melhorias de performance após treinamento com BFR ocorrem predominantemente por adaptações vasculares e neuromusculares locais, e não necessariamente por aumento da capacidade mitocondrial global, reforçando a hipótese de otimização da eficiência funcional do músculo ativo.

Influência do BFR na Cinética do VO₂ e na Estabilidade Metabólica

Outro conceito crítico no endurance contemporâneo é a cinética do VO₂, especialmente a velocidade com que o sistema oxidativo responde ao início ou às variações de intensidade do exercício. Cinéticas mais rápidas reduzem o déficit de oxigênio inicial, limitam a dependência glicolítica e atrasam o acúmulo de metabólitos associados à fadiga.

O ambiente hipóxico transitório imposto pelo BFR parece atuar como um potente estímulo para adaptações que favorecem essa transição metabólica. A ativação recorrente de vias dependentes de HIF-1α e PGC-1α estimula reorganização microvascular e melhora da difusão intracelular de oxigênio, fatores diretamente associados à aceleração da ativação oxidativa muscular.

Do ponto de vista funcional, isso implica menor perturbação metabólica durante mudanças de ritmo — situação típica em provas de endurance real — e maior estabilidade do estado fisiológico submáximo. Em termos aplicados, atletas podem sustentar intensidades próximas ao limiar fisiológico com menor deriva metabólica ao longo do tempo.

Essa característica conecta o BFR não apenas ao aumento de capacidade aeróbia, mas à qualidade da resposta aeróbia, conceito cada vez mais valorizado na ciência do desempenho.

Integração com Monitoramento Hemodinâmico por NIRS e Sistemas como Moxy Monitor

A evolução tecnológica permitiu observar diretamente adaptações periféricas anteriormente inferidas apenas de maneira indireta. Sistemas baseados em espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS), como o Moxy Monitor, oferecem medidas contínuas de saturação muscular de oxigênio (SmO₂) e hemoglobina total local.

O treinamento com BFR apresenta implicações particularmente interessantes sob essa perspectiva. Durante sessões com oclusão parcial, observa-se redução acentuada da SmO₂ acompanhada por maior extração periférica de oxigênio. Após períodos de treinamento, entretanto, ocorre modificação do padrão hemodinâmico caracterizada por:

  • recuperação mais rápida da oxigenação muscular,
  • maior fluxo hiperêmico pós-exercício,
  • menor queda relativa de saturação para mesma carga externa,
  • redução da ativação do metaboreflexo muscular.

Estudos mecanísticos demonstram aumento do fluxo femoral e melhor resposta vasodilatadora após intervenções com BFR, indicando melhora da regulação hemodinâmica local.

Sob interpretação aplicada ao NIRS, isso pode manifestar-se como maior estabilidade da Hb total e menor desoxigenação progressiva durante esforços prolongados — um possível marcador fisiológico de adaptação ao BFR.

Assim, o BFR representa uma das poucas intervenções capazes de produzir adaptações diretamente observáveis em tempo real por monitoramento muscular óptico.

BFR e o Conceito Emergente de Durability no Endurance

Talvez a conexão conceitual mais relevante seja com o conceito recente de durability, definido como a capacidade de preservar desempenho fisiológico e mecânico ao longo de exercícios prolongados apesar do acúmulo de fadiga sistêmica.

A perda progressiva de eficiência durante provas longas está associada a múltiplos fatores:

  • redução da perfusão muscular efetiva,
  • aumento do custo energético,
  • deterioração neuromuscular,
  • amplificação do metaboreflexo,
  • redistribuição ineficiente do fluxo sanguíneo.

O treinamento com BFR parece atuar exatamente nesses pontos críticos. Evidências mostram menor desenvolvimento de fadiga periférica e menor queda da força evocada após exercício quando comparado ao treinamento convencional.

Isso sugere que o BFR aumenta a tolerância muscular ao estresse metabólico prolongado, funcionando como um estímulo adaptativo que prepara o músculo para operar sob condições de perfusão limitada — situação fisiológica comum nas fases tardias de competições de endurance.

Sob essa ótica, o BFR pode ser interpretado como uma forma controlada de treinamento de escassez perfusional, promovendo adaptações que preservam função muscular quando a disponibilidade real de oxigênio torna-se progressivamente limitada durante o esforço prolongado.

Síntese Integrativa

Quando integrado aos modelos contemporâneos de fisiologia do endurance, o treinamento com restrição de fluxo sanguíneo deixa de ser apenas uma técnica alternativa e passa a representar um estímulo capaz de reorganizar a hierarquia dos determinantes do desempenho. Seus efeitos convergem para quatro adaptações-chave:

  1. aumento da eficiência mecano-metabólica (economia),
  2. aceleração da resposta oxidativa (cinética do VO₂),
  3. otimização da regulação hemodinâmica periférica observável por NIRS,
  4. aumento da durabilidade fisiológica durante esforços prolongados.

Dessa forma, o BFR emerge como intervenção particularmente alinhada à evolução conceitual do endurance moderno, no qual o desempenho não depende apenas da capacidade máxima do sistema, mas principalmente da capacidade de manter estabilidade fisiológica sob fadiga acumulada.

 

Referências

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