Hipertensão no atleta de endurance como fenômeno adaptativo multiescalar: integração hemodinâmica, microcirculação e pressões evolutivas do rendimento aeróbio

por | fev 6, 2026

A relação entre exercício aeróbio crônico e pressão arterial ocupa posição central na fisiologia humana, uma vez que o treinamento de endurance é reconhecido como um dos estímulos mais potentes para a redução da pressão arterial basal na população geral. Esse efeito hipotensor, amplamente documentado em indivíduos sedentários ou moderadamente ativos, está associado à diminuição da resistência vascular periférica, à melhora da função endotelial, à redução do tônus simpático basal e ao refinamento do controle barorreflexo. Em populações fisicamente ativas tradicionais, esses ajustes culminam em perfis pressóricos baixos e estáveis, compatíveis com um regime de economia hemodinâmica voltado à eficiência metabólica e à sobrevivência. Contudo, quando o foco se desloca para atletas de endurance altamente treinados, emerge um paradoxo fisiológico: apesar do predomínio de pressões basais reduzidas, observa-se, em uma minoria consistente, a presença de padrões pressóricos elevados em condições específicas, particularmente durante o exercício, ou discrepâncias entre medidas centrais e periféricas. A análise integrada da literatura indica que esse fenômeno não representa uma contradição da fisiologia do exercício, mas a expressão de adaptações cardiovasculares avançadas operando em regimes extremos de demanda hemodinâmica.

O treinamento de endurance induz remodelamento cardiovascular profundo, caracterizado por aumento do volume sistólico, expansão do volume plasmático, hipertrofia excêntrica do ventrículo esquerdo e capacidade de sustentar débitos cardíacos máximos muito superiores aos observados na população geral. Durante o exercício dinâmico, o aumento do débito cardíaco constitui o principal determinante da elevação da pressão arterial sistólica, enquanto a resistência vascular periférica global sofre redução acentuada em decorrência da vasodilatação metabólica nos músculos ativos. Em atletas altamente treinados, essa combinação resulta frequentemente em pressões sistólicas de pico elevadas, sem aumento proporcional da pressão diastólica. Do ponto de vista fisiológico, trata-se de uma consequência mecânica inevitável de um sistema cardiovascular otimizado para a entrega extrema de oxigênio, e não de falha regulatória.

Nesse contexto, é fundamental distinguir claramente os diferentes componentes da resposta pressórica ao exercício. No endurance, a elevação observada diz respeito predominantemente à pressão arterial sistólica, enquanto a pressão diastólica tende a permanecer estável ou a reduzir-se, refletindo a queda expressiva da resistência vascular periférica. Como a pressão arterial média é fortemente determinada pela pressão diastólica e pelo tempo diastólico do ciclo cardíaco, o aumento da sistólica é amplamente compensado pela manutenção ou redução da diastólica, resultando em pressão arterial média relativamente estável ao longo de grande parte do esforço. Assim, o exercício aeróbio dinâmico não se caracteriza por elevação substancial da pressão média, mas por ampliação da pressão de pulso, estratégia hemodinâmica que permite aumentar o fluxo sanguíneo com custo pressórico médio controlado, preservando a integridade microvascular e a estabilidade sistêmica.

A distinção entre hipertensão sustentada em repouso e elevações pressóricas dependentes do esforço é crucial para compreender o paradoxo observado em atletas de endurance. Revisões sistemáticas demonstram que, quando medidas padronizadas são utilizadas, a maioria dos atletas de endurance apresenta valores pressóricos basais semelhantes ou inferiores aos da população não treinada, especialmente quando comparados a atletas de modalidades de força ou potência. A prevalência de hipertensão sustentada em repouso é baixa, frequentemente inferior a 5% em grandes coortes, contrastando com valores mais elevados observados em esportes caracterizados por maior componente isométrico e maior massa corporal. Esses achados reforçam que o endurance preserva seu efeito hipotensor clássico mesmo em contextos de alto rendimento.

O paradoxo torna-se mais evidente quando se analisam respostas pressóricas dinâmicas. Estudos que avaliam a pressão arterial durante testes incrementais mostram que alguns atletas exibem respostas sistólicas superiores às previstas para determinado incremento metabólico. Do ponto de vista fisiológico, essas respostas refletem a interação entre débito cardíaco excepcionalmente alto, propriedades funcionais das grandes artérias e ajustes autonômicos recalibrados para operar em faixas pressóricas compatíveis com elevada exigência de fluxo. Essas respostas ocorrem predominantemente em intensidades elevadas, próximas ao domínio pesado-severo, nas quais a prioridade do sistema é preservar o gradiente de perfusão diante de uma microcirculação amplamente vasodilatada.

A compreensão plena desse fenômeno exige a incorporação da microcirculação como elemento central da análise. Após a ejeção ventricular e a distribuição pelas artérias elásticas e musculares, é no nível das arteríolas e capilares que se estabelece o controle fino da resistência vascular e da perfusão tecidual. O treinamento de endurance promove aumento da densidade capilar, melhora da função endotelial e maior biodisponibilidade de óxido nítrico, favorecendo a perfusão muscular e a extração periférica de oxigênio. Essas adaptações são determinantes diretas do rendimento aeróbio, pois reduzem a distância de difusão e ampliam a capacidade de sustentação do metabolismo oxidativo. Entretanto, a expansão da capacidade vasodilatadora periférica impõe ao sistema central a necessidade de manter pressão arterial média suficiente para garantir perfusão adequada de órgãos vitais e do próprio músculo ativo. Nesse cenário, a elevação funcional da pressão sistólica atua como variável permissiva da eficiência microcirculatória.

Do ponto de vista integrativo, o controle da pressão arterial durante o endurance representa um equilíbrio dinâmico entre forças aparentemente antagônicas. A vasodilatação metabólica local tende a reduzir a resistência periférica, enquanto a ativação simpática progressiva e o reajuste do barorreflexo preservam a pressão arterial média. Em atletas altamente treinados, esse equilíbrio é deslocado para patamares operacionais mais extremos, nos quais pressões sistólicas elevadas coexistem com elevada eficiência microvascular. A resposta pressórica, portanto, deve ser interpretada como parte de um sistema altamente especializado para sustentar fluxos sanguíneos extremos por períodos prolongados, e não como expressão isolada de desregulação.

A perspectiva evolutiva fornece arcabouço conceitual adicional para interpretar esse fenômeno. Evidências antropológicas e fisiológicas indicam que o organismo humano foi moldado para atividades de resistência prolongada, como a caça por persistência e a locomoção de longa distância, em ambientes nos quais a manutenção da perfusão cerebral e muscular sob estresse térmico e metabólico era crucial para a sobrevivência. Mecanismos capazes de preservar pressão arterial funcional durante esforço prolongado conferiam vantagem adaptativa. O atleta moderno de endurance explora esses mecanismos de forma sistemática e intensificada, acessando zonas fisiológicas que, evolutivamente, eram ativadas de maneira episódica. Em alguns indivíduos, essa exploração crônica favorece padrões pressóricos que se afastam do ideal de economia hemodinâmica observado em populações fisicamente ativas tradicionais, sem que isso represente, necessariamente, disfunção.

Outro aspecto relevante refere-se à heterogeneidade individual das respostas pressóricas ao treinamento de endurance. Estudos populacionais demonstram ampla variabilidade interindividual, influenciada por fatores genéticos, sexo, idade, histórico de treinamento e características estruturais do sistema vascular. Essa variabilidade explica por que, mesmo em um contexto predominantemente hipotensor, uma fração dos atletas apresenta padrões pressóricos distintos em condições específicas. Importante notar que essa fração permanece minoritária, reforçando que a hipertensão sustentada não é uma característica típica do atleta de endurance, mas uma expressão particular de adaptações cardiovasculares sob cargas e exposições temporais extremas.

Em síntese, o paradoxo da hipertensão em atletas de endurance não decorre de falha do efeito adaptativo do exercício aeróbio, mas da coexistência de dois regimes fisiológicos complementares. O primeiro, dominante, é caracterizado por baixa resistência vascular periférica e pressões basais reduzidas, semelhante ao observado em populações tradicionalmente ativas. O segundo, acessado por uma minoria altamente treinada, emerge da necessidade de sustentar perfusão adequada em um sistema microvascular altamente vasodilatado e metabolicamente exigido, manifestando-se por elevações pressóricas funcionais, sobretudo da pressão sistólica durante o exercício. Compreender essa dualidade é essencial para interpretar corretamente a fisiologia cardiovascular do endurance e evitar extrapolações indevidas a partir de fenômenos observados fora de seu contexto adaptativo.

 

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