Mar em Ácido, Céu em Chamas: A Crise Invisível que Atinge a Todos

por | abr 4, 2025

Apesar de ser inegável que a Revolução Industrial tenha transformado profundamente a vida humana em diversos contextos, seu legado ambiental revela a face agressiva da intervenção humana nos ecossistemas naturais. Desde o início das medições climáticas sistemáticas, por volta de 1880, satélites e estações de monitoramento atmosférico têm registrado um aumento médio de 1,5 °C na temperatura global, com aceleração significativa desde 1975 — cerca de 0,2 °C por década. Se essa tendência persistir, o planeta pode atingir um acréscimo de 2 °C em menos de 25 anos. Esse aquecimento, impulsionado principalmente pela queima de combustíveis fósseis, desmatamento, queimadas e práticas produtivas insustentáveis, tem consequências diretas e indiretas para todos os ecossistemas, especialmente os oceanos.

Entre os fenômenos ambientais mais preocupantes relacionados às mudanças climáticas, a acidificação dos oceanos se destaca por seu potencial devastador. Aproximadamente um quarto de todo o dióxido de carbono (CO₂) lançado na atmosfera pelas atividades humanas — como a industrialização, agricultura intensiva, produção de cimento e uso da terra — é absorvido pelos oceanos. Esse gás, ao se dissolver na água, reage com moléculas de H₂O e forma ácido carbônico (H₂CO₃), que se dissocia em íons bicarbonato (HCO₃⁻) e prótons (H⁺). O aumento na concentração de H⁺ reduz o pH da água do mar, tornando-a mais ácida, em um processo conhecido como acidificação oceânica.

As consequências desse processo são profundas. A acidificação compromete a disponibilidade de carbonato de cálcio, um composto essencial para a formação das estruturas de organismos marinhos calcificadores, como corais, moluscos (ostras, mexilhões) e certos tipos de plâncton — base da cadeia alimentar oceânica. A fragilização desses organismos coloca em risco não apenas a biodiversidade, mas também a estabilidade de ecossistemas inteiros. Recifes de coral, por exemplo, que sustentam milhares de espécies marinhas, estão entre os mais vulneráveis. Crustáceos como camarões e caranguejos também sofrem prejuízos em seu desenvolvimento, e as alterações no comportamento, metabolismo e reprodução de diversas espécies comprometem ainda mais a vida marinha.

Tais impactos não se limitam à fauna oceânica. A acidificação afeta diretamente a pesca e a segurança alimentar de milhões de pessoas, especialmente aquelas que vivem em comunidades costeiras e dependem da economia do mar. Além disso, os oceanos desempenham um papel fundamental na regulação climática global, na produção de oxigênio e na absorção de calor, sendo cruciais para o equilíbrio ambiental do planeta.

Diante desse cenário, torna-se urgente o fortalecimento da governança ambiental global. A cooperação entre países é indispensável para lidar com problemas transfronteiriços e promover a gestão sustentável dos oceanos. Acordos internacionais como o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris são marcos importantes, mas precisam ser ampliados e efetivamente implementados com metas mais ambiciosas de redução das emissões de CO₂.

Entre as ações prioritárias, destacam-se: a formulação de políticas públicas rigorosas para conter os gases de efeito estufa, o fomento à pesquisa e desenvolvimento de tecnologias limpas, e o incentivo a práticas de pesca sustentável e à conservação dos ecossistemas marinhos.

É fundamental compreender que a acidificação dos oceanos não é apenas uma consequência colateral das mudanças climáticas, mas uma manifestação direta da atividade humana desordenada. Proteger os mares e suas formas de vida não é apenas uma questão ambiental, mas um imperativo para garantir saúde, estabilidade econômica e sobrevivência para as futuras gerações.

Referências:

Dai R, Wen Z, Hong H, Browning TJ, Hu X, Chen Z, Liu X, Dai M, Morel FMM, Shi D. Eukaryotic phytoplankton drive a decrease in primary production in response to elevated CO2 in the tropical and subtropical oceans. Proc Natl Acad Sci U S A. 2025 Mar 18;122(11):e2423680122.

Falkenberg LJ, Bellerby RGJ, Connell SD, Fleming LE, Maycock B, Russell BD, Sullivan FJ, Dupont S. Ocean Acidification and Human Health. Int J Environ Res Public Health. 2020 Jun 24;17(12):4563. 

Gibney E. Climate change has slowed Earth’s rotation – and could affect how we keep time. Nature. 2024 Apr;628(8007):243-244.