O Glicogênio como Arquitetura Bioenergética do Desempenho Humano: Fundamentos Históricos, Metodológicos e Mecanísticos do Endurance e do Exercício de Alta Intensidade

por | jan 28, 2026

A história científica do glicogênio no exercício físico confunde-se com a própria consolidação da fisiologia do exercício como disciplina experimental. Desde os primeiros estudos metabólicos do início do século XX até as investigações contemporâneas sobre compartimentalização subcelular, o glicogênio tem sido simultaneamente objeto de consenso prático e de controvérsia teórica. A aparente simplicidade de sua função — armazenar glicose — contrasta com a complexidade de seus efeitos sobre a tolerância ao exercício, a manifestação da fadiga, a adaptação ao treinamento e a integração entre músculo, fígado e sistema nervoso central.

Os primeiros indícios do papel determinante dos carboidratos no exercício emergiram em um período anterior à possibilidade de mensuração direta dos estoques musculares. Estudos clássicos de Christensen e Hansen demonstraram que dietas pobres em carboidratos reduziam drasticamente a capacidade de sustentar exercício prolongado, enquanto dietas ricas em carboidratos aumentavam o tempo até a exaustão. Essas observações, ainda que indiretas, foram fundamentais para estabelecer o conceito de que a fadiga não era apenas consequência de exaustão mecânica ou cardiovascular, mas possuía forte componente metabólico, particularmente relacionado à disponibilidade de carboidratos.

A grande ruptura metodológica ocorre na década de 1960, com o desenvolvimento da técnica de biópsia muscular por Bergström. Pela primeira vez, tornou-se possível quantificar diretamente o glicogênio intramuscular em humanos vivos. Os estudos clássicos de Bergström, Hultman, Hermansen e Saltin constituem um dos conjuntos experimentais mais influentes da fisiologia do exercício. Demonstrou-se que o conteúdo inicial de glicogênio muscular variava amplamente em função da dieta e que essa variação se correlacionava de forma quase linear com o tempo até a exaustão em exercícios prolongados realizados a intensidades submáximas elevadas. Esses trabalhos não apenas estabeleceram o glicogênio como determinante central do desempenho em endurance, mas também inauguraram o conceito de supercompensação de glicogênio, com profundas repercussões práticas no treinamento esportivo.

Na sequência, estudos adicionais demonstraram que o glicogênio muscular é extensivamente utilizado durante o exercício prolongado, mesmo na presença de glicose circulante, reforçando a ideia de que o músculo depende criticamente de suas reservas endógenas. Ao mesmo tempo, ficou evidente que a depleção do glicogênio não ocorria de maneira uniforme entre músculos ou fibras, introduzindo desde cedo a noção de heterogeneidade metabólica intramuscular.

Durante as décadas de 1970 e 1980, o paradigma do glicogênio como combustível limitante do endurance consolidou-se de forma quase dogmática. Revisões como a de Conlee sintetizaram vinte anos de evidências, apresentando o glicogênio como fator central da fadiga. Sherman e outros autores traduziram esse conhecimento para a prática esportiva, promovendo dietas ricas em carboidratos e estratégias sistemáticas de carregamento de glicogênio. Nesse período, o modelo dominante assumia implicitamente que a fadiga decorria de uma incapacidade progressiva do músculo de regenerar ATP à taxa necessária para sustentar o trabalho mecânico.

Entretanto, à medida que métodos mais sofisticados de análise bioquímica e fisiológica se tornaram disponíveis, esse modelo começou a apresentar fissuras conceituais. Um dos pontos mais críticos foi a constatação recorrente de que, no momento da exaustão, as concentrações musculares de ATP permaneciam relativamente preservadas. Green, em sua revisão clássica, chamou atenção para o fato de que a falha contrátil ocorria sem evidências consistentes de colapso energético global, questionando a suficiência do modelo puramente energético da fadiga.

Esse questionamento ganhou força com os estudos de Coyle e colaboradores, que introduziram a ingestão de carboidratos durante o exercício como ferramenta experimental. Esses trabalhos demonstraram que a suplementação com carboidratos prolonga significativamente o tempo até a exaustão, mesmo quando a taxa de depleção do glicogênio muscular permanece praticamente inalterada. Observou-se que o exercício adicional realizado sob suplementação era sustentado principalmente pela oxidação de glicose exógena, com manutenção da glicemia. Esses achados deslocaram o foco da fadiga do músculo isolado para o controle sistêmico da glicose, sugerindo papel central do fígado e do sistema nervoso central na interrupção do exercício.

A partir dos anos 1990 e 2000, o campo passou por uma transformação conceitual profunda com o avanço das técnicas de microscopia eletrônica, análise de fibras individuais e estudos mecanísticos em modelos celulares. Trabalhos de Johnson e colaboradores mostraram que atletas de endurance apresentam elevada capacidade de oxidar triglicerídeos intramusculares, especialmente quando a disponibilidade de glicogênio é reduzida. Contudo, esses estudos também demonstraram que a oxidação lipídica não substitui plenamente o glicogênio em intensidades elevadas, reforçando sua importância como substrato de alta potência.

O avanço decisivo ocorre com a demonstração de que o glicogênio não é armazenado de forma homogênea no músculo. Estudos de Nielsen, Ørtenblad e colaboradores revelaram a existência de pools subcelulares distintos — intramiofibrilar, intermiofibrilar e subsarcolemal — cada um associado a estruturas e funções específicas. O glicogênio intramiofibrilar, localizado em estreita proximidade aos complexos de liberação de Ca²⁺ do retículo sarcoplasmático, mostrou-se particularmente sensível à depleção durante o exercício e fortemente associado à perda de força.

Essas observações forneceram base estrutural para um novo modelo mecanístico da fadiga. Estudos em fibras mecanicamente isoladas demonstraram que baixos níveis de glicogênio reduzem a liberação de Ca²⁺ pelo retículo sarcoplasmático, comprometendo o acoplamento excitação–contração mesmo quando ATP e fosfocreatina são mantidos em níveis adequados. Assim, o glicogênio passa a ser compreendido como modulador local da função contrátil, e não apenas como combustível global.

A relevância dessa organização espacial torna-se ainda mais evidente em exercícios de alta intensidade e esportes intermitentes. Revisões como a de Vigh-Larsen demonstraram que, durante sprints repetidos e modalidades coletivas, a depleção ocorre de forma altamente heterogênea entre fibras. Um número significativo de fibras pode atingir níveis criticamente baixos de glicogênio enquanto o conteúdo médio do músculo permanece moderado. Esse fenômeno explica a queda de desempenho antes da depleção global e reforça a ideia de que a fadiga emerge de falhas locais distribuídas.

Outro eixo central da literatura diz respeito à recuperação e à adaptação ao treinamento. Estudos clássicos e contemporâneos demonstraram que a ressíntese de glicogênio muscular é altamente dependente da ingestão adequada de carboidratos, especialmente nas primeiras horas pós-exercício. Burke e colaboradores detalharam os mecanismos hormonais e celulares envolvidos nesse processo, destacando o papel da insulina e da sensibilidade muscular. Trabalhos mais recentes demonstraram que a ressíntese hepática apresenta cinética distinta e papel crítico na prevenção da hipoglicemia em sessões subsequentes.

O debate contemporâneo sobre estratégias de baixa disponibilidade de carboidratos adicionou nova camada de complexidade. Evidências indicam que treinar com baixo glicogênio amplifica sinais moleculares associados à biogênese mitocondrial, como a ativação da AMPK e da p38-MAPK. Contudo, revisões críticas demonstram que essas adaptações nem sempre se traduzem em melhor desempenho competitivo, especialmente quando a competição ocorre em estado alimentado. Essa dissociação entre adaptação molecular e rendimento funcional reforça a necessidade de interpretar o glicogênio não apenas como gatilho de sinalização, mas como elemento funcional indispensável durante a performance.

Estudos recentes, como os de Prins e colaboradores, reforçaram de forma definitiva o papel da hipoglicemia induzida pelo exercício como fator limitante do desempenho. Demonstrou-se que a ingestão de carboidratos durante o exercício elimina a hipoglicemia e melhora o desempenho mesmo quando o glicogênio muscular permanece baixo, consolidando a visão de que a fadiga é fenômeno integrado, envolvendo músculo, fígado e sistema nervoso central.

À luz do conjunto completo de evidências, emerge um modelo contemporâneo no qual o glicogênio atua como eixo integrador da bioenergética humana. Sua quantidade total, sua distribuição subcelular, sua interação com o fígado e sua influência sobre o cérebro formam um sistema complexo que governa a tolerância ao exercício, a manifestação da fadiga e a capacidade de adaptação ao treinamento. A história do glicogênio, portanto, não é apenas a história de um substrato energético, mas a história da evolução conceitual da fisiologia do exercício.

 

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