A variabilidade da frequência cardíaca (VFC) consolidou-se, ao longo das últimas décadas, como um dos mais relevantes marcadores não invasivos da regulação autonômica cardíaca e, por extensão, do estado funcional global do organismo. Diferentemente da frequência cardíaca média, que representa apenas o resultado final da interação entre múltiplos sistemas regulatórios, a VFC expressa a dinâmica temporal dessa interação, capturando flutuações beat-to-beat que refletem a capacidade do sistema cardiovascular de responder de forma flexível a estímulos internos e externos. Revisões históricas e escopos recentes demonstram que a noção de que a variabilidade é um atributo da saúde, e não do ruído fisiológico, está profundamente enraizada na evolução conceitual da VFC, desde as primeiras observações da arritmia sinusal respiratória até as modernas abordagens em domínios do tempo, da frequência e não lineares.
Do ponto de vista biológico, a VFC emerge da integração de mecanismos centrais e periféricos que regulam o nó sinoatrial. Em repouso, a frequência cardíaca intrínseca do coração humano situa-se em torno de 100–110 bpm; entretanto, a predominância do tônus vagal reduz esse valor para níveis observados em indivíduos saudáveis, particularmente em atletas de endurance. A ação parassimpática caracteriza-se por latência curta e elevada capacidade de modulação beat-to-beat, enquanto a influência simpática apresenta resposta mais lenta e sustentada. Essa assimetria temporal explica por que índices vagais da VFC, como o RMSSD e componentes de alta frequência, são especialmente sensíveis a alterações agudas do estado fisiológico, enquanto métricas associadas a oscilações de baixa frequência refletem a interação entre mecanismos simpáticos, vagais e reflexos barorreceptores.
Além do balanço simpato-vagal clássico, estudos mais recentes enfatizam que a VFC deve ser compreendida como um produto de sistemas complexos. O controle barorreflexo, a mecânica respiratória, o estado inflamatório, a disponibilidade energética, o eixo hipotálamo–hipófise–adrenal e até fatores emocionais e cognitivos influenciam o padrão final do sinal. Essa visão sistêmica é particularmente relevante no esporte de endurance, no qual o treinamento impõe estressores simultâneos de natureza metabólica, neuromuscular, hormonal e psicossocial, todos potencialmente refletidos na modulação autonômica cardíaca.
A aferição da VFC, para que tenha validade científica e utilidade prática, exige rigor metodológico consistente. O eletrocardiograma permanece como padrão-ouro para a detecção precisa dos intervalos RR; contudo, dispositivos portáteis baseados em cintas torácicas ou sensores ópticos têm se mostrado adequados quando devidamente validados. A literatura converge no sentido de que a padronização das condições de coleta é determinante para reduzir a variabilidade não fisiológica do sinal. Horário fixo, preferência pelo período matinal, posição corporal controlada (supina ou ortostática), ambiente silencioso, temperatura estável e ausência de estímulos agudos como cafeína, álcool ou exercício prévio são recomendações recorrentes. A influência da respiração merece destaque, uma vez que variações espontâneas ou respiração guiada alteram significativamente a magnitude da arritmia sinusal respiratória, impactando diretamente os índices vagais da VFC.
No que se refere aos métodos de análise, os dados reforçam que, para atletas de endurance, os parâmetros no domínio do tempo, especialmente o RMSSD e sua transformação logarítmica, apresentam melhor relação sinal-ruído e maior aplicabilidade para monitoramento longitudinal. Embora análises no domínio da frequência e métodos não lineares ofereçam insights fisiológicos adicionais, sua sensibilidade à não estacionariedade do sinal e às condições de coleta limita o uso rotineiro em contextos de campo. Um ponto reiteradamente enfatizado é que medidas isoladas de VFC possuem grande variabilidade diária, frequentemente superior a 10–12%, o que reduz drasticamente sua capacidade diagnóstica quando interpretadas de forma pontual.
É justamente nesse contexto que a análise longitudinal da VFC assume protagonismo. Estudos experimentais com atletas de endurance demonstram que médias móveis ou semanais de índices vagais são significativamente mais sensíveis às alterações induzidas por períodos de sobrecarga e recuperação do que comparações pré–pós baseadas em registros únicos. Esse procedimento estatístico simples atenua a variabilidade biológica diária e permite a identificação de tendências autonômicas coerentes com o estado adaptativo do atleta, reforçando a utilidade da VFC como ferramenta de monitoramento contínuo.
No âmbito da recuperação intertreinos, a literatura é consistente ao demonstrar que atletas de endurance bem adaptados apresentam VFC basal elevada e recuperação rápida da modulação vagal após sessões intensas. A restauração dos valores individuais de referência nas 24–48 horas subsequentes ao exercício sugere recomposição adequada da homeostase autonômica e energética. Em contraste, reduções persistentes da VFC, associadas a aumento da frequência cardíaca de repouso, têm sido interpretadas como sinais de estresse residual, frequentemente acompanhados por distúrbios do sono, maior percepção subjetiva de fadiga e maior suscetibilidade a infecções do trato respiratório superior, como demonstrado em estudos com triatletas submetidos a blocos de treinamento intensificado.
A relação entre VFC e overtraining, entretanto, revela-se mais complexa e tem sido objeto de intenso debate. Evidências experimentais robustas indicam que atletas em estado de overreaching funcional podem apresentar aumento, e não redução, da modulação vagal em repouso, configurando o fenômeno denominado hiperatividade parassimpática. Estudos longitudinais com triatletas e corredores mostram que, durante períodos de sobrecarga deliberada, ocorre redução do desempenho acompanhada por queda da frequência cardíaca máxima, aumento da recuperação da frequência cardíaca pós-exercício e elevação dos índices vagais da VFC, especialmente quando analisados por médias semanais.
Meta-análises recentes reforçam que essa hiperatividade parassimpática é detectável apenas quando fatores metodológicos são cuidadosamente controlados, destacando-se a superioridade de médias semanais de VFC e da análise da recuperação da frequência cardíaca em relação a medidas isoladas de repouso. Esses achados sustentam a hipótese de que o overreaching funcional envolve uma adaptação autonômica compensatória a períodos prolongados de estimulação simpática, possivelmente mediada por remodelação do nó sinoatrial, redução da sensibilidade β-adrenérgica e ajustes centrais no controle autonômico.
Contudo, um desafio central emerge dessa literatura: aumentos da VFC também são observados em contextos de melhora do condicionamento aeróbio e supercompensação. Dessa forma, a interpretação da VFC isoladamente é insuficiente para diferenciar adaptação positiva de maladaptação. Estudos que integraram VFC com medidas subjetivas de tolerância ao treinamento, percepção de energia, fadiga e dor muscular demonstram maior capacidade discriminativa, evidenciando que a VFC deve ser compreendida como parte de um sistema integrado de monitoramento do atleta, e não como um marcador diagnóstico autônomo.
Em síntese, o corpo de evidências apresentado nos artigos anexados sustenta que a variabilidade da frequência cardíaca é um marcador fisiologicamente fundamentado, sensível e aplicável ao contexto do esporte de endurance, desde que utilizada com rigor metodológico e interpretação contextualizada. Sua maior contribuição reside na avaliação longitudinal da recuperação intertreinos e na identificação precoce de estados de adaptação ou maladaptação autonômica. A VFC não substitui a análise do desempenho nem os indicadores clínicos, mas, quando integrada a eles, amplia substancialmente a compreensão do estado funcional do atleta, oferecendo uma janela privilegiada para a leitura da complexa relação entre carga, recuperação e adaptação biológica.
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