A literatura cientifica da última década refinou a compreensão do endotélio como um tecido altamente treinável, sensível não apenas à presença do exercício, mas sobretudo à natureza do estímulo mecânico, à intensidade relativa, ao volume acumulado e ao balanço entre estresse e recuperação. Em continuidade à perspectiva evolutiva, esses estudos permitem avançar do “por que” e do “quando” o endotélio surgiu para o “como” ele se adapta — ou falha em se adaptar — frente às diferentes expressões do exercício humano moderno.
Um dos pontos mais consistentes que emerge desses trabalhos é que a adaptação endotelial não segue uma relação linear com a intensidade do exercício. O estudo clássico de Goto et al. demonstrou, de forma elegante, que apenas o treinamento aeróbio de intensidade moderada (~50% do VO₂máx) foi capaz de melhorar a vasodilatação dependente do endotélio em indivíduos jovens saudáveis, enquanto intensidades baixas foram insuficientes como estímulo adaptativo e intensidades elevadas (~75% do VO₂máx) induziram aumento de marcadores de estresse oxidativo, atenuando os benefícios mediados pelo óxido nítrico. Esse achado fornece uma base mecanicista robusta para o conceito de hormese vascular, no qual existe uma “janela ótima” de estresse hemodinâmico capaz de maximizar a sinalização pró-adaptativa do endotélio.
A partir dessa observação, a revisão magistral de Green e colaboradores consolida o papel central dos estímulos hemodinâmicos — especialmente o estresse de cisalhamento — como mediadores primários da adaptação vascular ao exercício. O endotélio atua como um verdadeiro mecanossensor evolutivamente refinado, convertendo forças físicas do fluxo sanguíneo em sinais bioquímicos que modulam a expressão gênica, a produção de NO, a remodelação da parede arterial e a angiogênese. Repetidos episódios de aumento do fluxo e do cisalhamento durante o treinamento explicam não apenas a melhora funcional avaliada por FMD, mas também alterações estruturais mais duradouras, como aumento do diâmetro arterial e redistribuição da espessura da parede vascular. Esses efeitos diretos ajudam a explicar o chamado “gap do fator de risco”, isto é, o fato de grande parte da proteção cardiovascular conferida pelo exercício não ser explicada apenas pela melhora de lipídios, pressão arterial ou glicemia.
Entretanto, os artigos também demonstram que nem todo estresse mecânico é interpretado como benéfico pelo endotélio. Episódios breves de hipertensão extrema induzidos pelo exercício resistido pesado, como documentado por Jurva et al., podem reduzir transitoriamente a FMD em indivíduos não adaptados, enquanto levantadores de peso treinados parecem apresentar uma atenuação dessa resposta deletéria. Esse contraste reforça a noção de especificidade adaptativa: o endotélio “aprende” a tolerar padrões particulares de pressão, fluxo e estiramento quando exposto cronicamente a eles, mas responde de forma adversa quando o estímulo é abrupto e não habitual.
A ideia de que o endotélio pode ser treinado sistematicamente é discutida de forma abrangente na revisão narrativa de Biernat et al., que sintetiza décadas de evidências mostrando que diferentes modalidades de exercício — endurance contínuo, treinamento intervalado de alta intensidade, resistência dinâmica e até estímulos isométricos — ativam vias endoteliais parcialmente distintas. A convergência dessas vias ocorre, sobretudo, na modulação do eixo NO–ROS, no balanço entre fatores vasodilatadores e vasoconstritores e na preservação da integridade da parede vascular. Essa visão reforça o endotélio como um alvo terapêutico não farmacológico e posiciona o treinamento físico como uma forma de “farmacologia mecânica”.
Uma contribuição conceitual particularmente relevante vem da revisão de Padilla e Laughlin, que amplia o foco tradicional nos músculos ativos e demonstra que as adaptações endoteliais induzidas pelo exercício extrapolam os leitos vasculares diretamente recrutados. Evidências em humanos e modelos animais indicam melhora da função endotelial em tecidos considerados “inativos” durante o exercício, como membros superiores em treinamentos de membros inferiores. Esses achados sugerem a existência de sinais sistêmicos — possivelmente alterações no padrão de cisalhamento pulsátil, fatores humorais circulantes e mediadores inflamatórios — capazes de induzir uma adaptação endotelial global, reforçando o caráter integrador do sistema circulatório.
No nível microvascular, a diversidade de mecanismos de vasodilatação dependente do endotélio é aprofundada por Durand e Gutterman, que demonstram que a predominância relativa de NO, prostaglandinas ou fatores hiperpolarizantes derivados do endotélio varia conforme o leito vascular, o estado de saúde e o histórico de treinamento. Essa plasticidade molecular confere resiliência ao sistema vascular, permitindo que a perfusão tecidual seja mantida mesmo quando uma via específica é temporariamente comprometida, como ocorre em situações de estresse oxidativo elevado.
Os estudos com populações específicas fornecem ainda mais nuances. Rinder et al. demonstraram que homens idosos submetidos a décadas de treinamento de endurance apresentam vasodilatação dependente do endotélio significativamente superior à de pares sedentários, inclusive em artérias de músculos não treinados, sugerindo que o exercício é capaz de atenuar — ou mesmo reverter — o declínio endotelial associado ao envelhecimento. Em contraste, dados recentes em atletas de alto rendimento do sexo feminino indicam que cargas de treinamento excessivas e mal balanceadas podem levar a disfunção endotelial crônica, associada a aumento do shedding do glicocálix e a desequilíbrios hormonais anabólico-catabólicos. Esses achados são particularmente relevantes no contexto do esporte de elite, pois demonstram que a fronteira entre adaptação e dano vascular pode ser ultrapassada quando o estresse supera a capacidade adaptativa do endotélio.
Essa ambiguidade é sintetizada de forma conceitual na revisão “How much is too much?”, que propõe uma curva em U para a relação entre exercício e função vascular. Tanto a inatividade quanto o exercício extremo e cronicamente exaustivo podem romper o equilíbrio entre NO e espécies reativas de oxigênio, levando à disfunção endotelial por vias distintas. Assim, o endotélio emerge como um sensor biológico fino, ajustado ao longo da evolução para lidar com desafios frequentes, porém intercalados por recuperação adequada.
Em conjunto, os estudos analisados reforçam uma visão integrada: o endotélio não apenas responde ao exercício, mas registra sua história mecânica. Intensidade, volume, padrão hemodinâmico, sexo, idade e estado de treinamento modulam profundamente a direção e a magnitude da adaptação vascular. No alto rendimento, onde os limites fisiológicos são continuamente explorados, o endotélio deixa de ser apenas um mediador silencioso da performance e passa a ser um potencial fator limitante, cuja integridade funcional pode determinar a sustentabilidade do desempenho ao longo do tempo. O treinamento de endurance, quando bem dosado, reativa um programa adaptativo ancestral; quando excessivo, pode expor as fragilidades desse mesmo sistema evolutivamente refinado.
Referências
BIERNAT, K. et al. Is it possible to train the endothelium? Life, v. 14, n. 616, 2024.
DURAND, M. J.; GUTTERMAN, D. D. Exercise and vascular function – how much is too much? Canadian Journal of Physiology and Pharmacology, v. 92, p. 551–557, 2014.
DURAND, M. J.; GUTTERMAN, D. D. Diversity in mechanisms of endothelium-dependent vasodilation in health and disease. Microcirculation, v. 20, p. 239–247, 2013.
GOTO, C. et al. Effect of different intensities of exercise on endothelium-dependent vasodilation in humans. Circulation, v. 108, p. 530–535, 2003.
GREEN, D. J. et al. Vascular adaptation to exercise in humans: role of hemodynamic stimuli. Physiological Reviews, v. 97, p. 495–528, 2017.
JURVA, J. W. et al. The effect of exertional hypertension evoked by weight lifting on vascular endothelial function. Journal of the American College of Cardiology, v. 48, p. 588–589, 2006.
PADILLA, J. et al. Vascular effects of exercise: endothelial adaptations beyond active muscle beds. Physiology, v. 26, p. 132–145, 2011.
RINDER, M. R.; SPINA, R. J.; EHSANI, A. A. Enhanced endothelium-dependent vasodilation in older endurance-trained men. Journal of Applied Physiology, v. 88, p. 761–766, 2000.
GRANDYS, M. et al. Training-induced impairment of endothelial function in track and field female athletes. Scientific Reports, v. 13, art. 3502, 2023.