Arquitetura do Estímulo e Metabolismo do Tempo: a Sinfonia Adaptativa da Periodização em Blocos no Treinamento de Endurance segundo a metodologia de Ronnestad

por | jan 21, 2026

A abordagem científica para o aprimoramento da capacidade fisiológica em atletas de endurance, insere-se em uma tradição contemporânea da fisiologia do exercício que reconhece os limites adaptativos impostos por anos de treinamento sistemático e a necessidade de estratégias refinadas de organização da carga. Em atletas altamente treinados, ganhos adicionais em variáveis determinantes do desempenho aeróbio — como o consumo máximo de oxigênio, a potência aeróbia máxima e a potência associada a concentrações submáximas de lactato — tornam-se progressivamente mais difíceis, exigindo estímulos mais concentrados, porém criteriosamente controlados. Nesse contexto, a periodização em blocos emerge não apenas como uma alternativa metodológica à organização tradicional do treinamento, mas como um modelo conceitual capaz de modular o estresse fisiológico de forma mais direcionada e potencialmente mais eficaz (RØNNESTAD et al., 2014).

Os estudos analisados convergem ao demonstrar que a simples manipulação do volume total de treinamento é insuficiente para explicar as adaptações observadas em atletas de endurance de alto nível. Ao contrário, a distribuição temporal da carga, particularmente a concentração estratégica de sessões de alta intensidade, parece exercer papel central na indução de respostas adaptativas superiores. Em investigações comparando a periodização em blocos com a organização tradicional, ambas mantendo volumes semelhantes de treinamento de baixa intensidade (LIT) e de treinamento intervalado de alta intensidade (HIT), observou-se que a concentração de múltiplas sessões de HIT em curtos períodos foi associada a aumentos mais pronunciados no VO₂máx e na potência aeróbia máxima, bem como a tendências de melhora mais acentuada na potência ao limiar de lactato (RØNNESTAD et al., 2014). Esses achados reforçam a noção de que, em atletas bem treinados, a magnitude do estímulo concentrado pode ser mais determinante do que a simples frequência semanal média de sessões intensas.

O estudo de caso longitudinal conduzido ao longo de 58 semanas oferece uma perspectiva singular sobre os efeitos cumulativos da periodização em blocos quando aplicada de forma sistemática e integrada a diferentes zonas de intensidade, incluindo blocos específicos de treinamento de baixa, moderada e alta intensidade, além da incorporação planejada do treinamento de força pesada. Os resultados demonstraram incrementos substanciais no VO₂máx, na potência aeróbia máxima e na potência associada a 3 mmol·L⁻¹ de lactato sanguíneo, mesmo em um ciclista que já se encontrava em patamar fisiológico elevado no início da intervenção. Esses ganhos foram acompanhados por aumentos expressivos na força máxima de membros inferiores, sugerindo uma interação positiva entre adaptações neuromusculares e o desempenho aeróbio, possivelmente mediada por melhorias na economia de movimento e na fração de utilização do VO₂máx em intensidades submáximas (RØNNESTAD; HANSEN, 2018).

A lógica interna deste modelo de treinamento basea-se na evolução temporal da carga semanal de treinamento, discriminada pelo tempo despendido em diferentes zonas de intensidade, concomitantemente ao desenvolvimento de variáveis-chave do desempenho fisiológico. A alternância sistemática entre blocos focados em LIT, treinamento de intensidade moderada (MIT) e HIT evidencia uma periodização ondulatória em macroescala, na qual cada bloco impõe um estímulo dominante, enquanto os demais são mantidos em níveis suficientes para preservar adaptações prévias. Essa estratégia parece minimizar a interferência negativa entre estímulos concorrentes e maximizar a resposta adaptativa específica a cada fase.

Ainda neste contexto, destaca-se a relação temporal entre os períodos de maior concentração de HIT e os incrementos mais acentuados no VO₂máx e na potência aeróbia máxima. Tal associação sugere que a exposição repetida a blocos de sobrecarga de alta intensidade promove estímulos cardiorrespiratórios e periféricos suficientemente robustos para deslocar o platô adaptativo típico de atletas de elite. Em paralelo, o aumento progressivo da potência a 3 mmol·L⁻¹ de lactato indica não apenas melhora na capacidade oxidativa máxima, mas também refinamento do controle metabólico em intensidades submáximas, aspecto crucial para o desempenho em provas de endurance prolongadas.

A análise da carga total de treinamento de endurance, revela que os ganhos fisiológicos não são acompanhados por um aumento linear da carga global. Pelo contrário, a carga total oscilou de acordo com o foco de cada bloco, reforçando a ideia de que a qualidade e a organização temporal do estímulo são mais relevantes do que a simples acumulação de horas de treino. Esse achado tem implicações práticas importantes, pois sugere que melhorias substanciais podem ser alcançadas sem incremento excessivo do volume total, reduzindo potencialmente o risco de overreaching não funcional e de lesões associadas ao excesso de carga crônica.

A incorporação do treinamento de força pesada constitui outro elemento central da abordagem. Evidências oriundas dos estudos indicam que aumentos significativos na força máxima de membros inferiores coexistiram com melhorias no desempenho aeróbio, contrariando a visão tradicional de antagonismo entre treinamento de força e endurance. Em ciclistas de elite, o aumento da força parece contribuir para maior eficiência mecânica e menor custo energético relativo em intensidades submáximas, além de potencialmente elevar a potência sustentável em esforços próximos ao limiar (RØNNESTAD; HANSEN, 2018).

No que se refere à descrição detalhada do processo de treinamento ao longo de um período de aproximadamente 20 semanas, a lógica da periodização em blocos pressupõe uma organização sequencial das cargas que respeita tanto a hierarquia dos estímulos quanto o tempo biológico necessário para a manifestação das adaptações. Em uma primeira etapa, predominam blocos de baixa intensidade, cujo objetivo central é ampliar a base aeróbia, restaurar a estabilidade autonômica e criar um ambiente metabólico favorável à biogênese mitocondrial e à capilarização. Essa fase inicial não deve ser interpretada como preparatória em sentido simplista, mas como momento de reorganização funcional do sistema, no qual a tolerância ao volume e a eficiência metabólica são restabelecidas ou aprofundadas.

À medida que o processo avança, blocos de intensidade moderada passam a ser introduzidos de forma estratégica, atuando como elemento de transição e consolidação. Nesses blocos, o estímulo situa-se abaixo do domínio severo, mas suficientemente elevado para promover adaptações relacionadas ao aumento da potência sustentável, à melhoria do limiar de lactato e à redução do custo energético em intensidades submáximas. O papel do treinamento moderado, nesse contexto, não é competir com o treinamento de alta intensidade, mas traduzir as adaptações induzidas por este em desempenho funcionalmente utilizável ao longo de esforços prolongados.

Os blocos de alta intensidade, por sua vez, são inseridos de maneira pontual e concentrada, com duração relativamente curta, mas densidade elevada de estímulos. O objetivo fisiológico desses blocos é romper platôs adaptativos, estimular fortemente o sistema cardiorrespiratório central e intensificar as adaptações periféricas associadas à capacidade oxidativa máxima. A curta duração desses períodos é deliberada, uma vez que a manutenção prolongada de estímulos severos tende a aumentar o custo autonômico e neuromuscular sem ganhos proporcionais adicionais. Assim, a alternância subsequente com blocos de menor intensidade permite que a fadiga seja dissipada e que a supercompensação se manifeste plenamente.

Na etapa final do ciclo de treinamento, observa-se uma redução progressiva da carga total, acompanhada da manutenção seletiva de estímulos-chave. Esse período não representa uma simples diminuição do treinamento, mas uma reconfiguração do estímulo, na qual a intensidade elevada é drasticamente reduzida, o volume é moderado e a ênfase recai sobre a preservação das adaptações adquiridas. A literatura demonstra que essa estratégia de redução planejada da carga, quando precedida por blocos adequados de sobrecarga, favorece a expressão máxima do desempenho fisiológico, sobretudo em contextos competitivos com elevada demanda metabólica (RØNNESTAD; VIKMOEN, 2019).

Em síntese, a literatura analisada sustenta que a melhoria da capacidade fisiológica em atletas de endurance de elite depende menos de aumentos indiscriminados de volume e mais de uma arquitetura refinada do treinamento, baseada na periodização em blocos, na concentração estratégica de estímulos intensos, na manutenção mínima de capacidades não priorizadas e na integração criteriosa do treinamento de força. Essa lógica se materializa ao evidenciarmos que o progresso fisiológico emerge da interação dinâmica entre carga, intensidade e tempo, compondo uma sinfonia adaptativa na qual cada bloco cumpre um papel específico no avanço do desempenho.

Referências

RØNNESTAD, B. R. et al. Effects of 12 weeks of block periodization on performance and performance indices in well-trained cyclists. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, v. 24, n. 2, p. 327–335, 2014.

RØNNESTAD, B. R.; HANSEN, J. A scientific approach to improve physiological capacity of an elite cyclist. International Journal of Sports Physiology and Performance, v. 13, n. 3, p. 390–393, 2018.

RØNNESTAD, B. R.; VIKMOEN, O. A. A 11-day compressed overload and taper induces larger physiological improvements than a normal taper in elite cyclists. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, v. 29, n. 12, p. 1856–1865, 2019.

 

Imagem destacada – Jürgen Matern – Wikemedia commons (Own work  – JMatern_180708_3518_WC.jpg) https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Daniela_Ryf_2018_Ironman_European_Championship_Frankfurt_2.jpeg