Eficiência temporal não é equivalência biológica: limites conceituais da extrapolação de dados epidemiológicos baseados em wearables para modelos de treinamento e adaptação fisiológica

por | jan 15, 2026

O estudo recentemente publicado por Biswas et al. apresenta uma análise robusta e inovadora, baseada em acelerometria de alta resolução, ao propor novas estimativas de equivalência entre intensidades de atividade física em relação a desfechos clínicos relevantes, incluindo mortalidade, eventos cardiovasculares, diabetes tipo 2 e câncer. Trata-se, sem dúvida, de uma contribuição importante para a epidemiologia da atividade física e para o debate contemporâneo sobre como dados oriundos de dispositivos vestíveis podem informar diretrizes de saúde pública. Entretanto, algumas questões conceituais e metodológicas merecem discussão crítica, sobretudo no que diz respeito à interpretação dos achados e ao risco de extrapolações indevidas para contextos que extrapolam o escopo original do estudo.

Delimitação insuficiente entre saúde populacional e adaptação fisiológica ao treinamento

O trabalho investiga associações entre intensidade de atividade física e desfechos clínicos duros em uma coorte populacional predominantemente não atlética, com idade média superior a 60 anos. Ainda assim, suas conclusões podem ser interpretadas — explicitamente ou por inferência — como questionamento indireto de modelos de prescrição baseados em maior volume de atividade de baixa intensidade, amplamente sustentados na literatura de treinamento de endurance. Essa leitura é conceitualmente problemática. O estudo não avalia desempenho físico, capacidade aeróbia máxima, economia de movimento, adaptações mitocondriais, remodelamento cardíaco ou sustentabilidade do estímulo ao longo do tempo — variáveis centrais para a ciência do treinamento. A redução relativa de risco clínico em uma população envelhecida não pode ser tratada como proxy de equivalência biológica ou adaptativa entre estímulos fisiologicamente distintos.

Intensidade absoluta como fonte de viés fisiológico

A classificação de intensidade baseia-se em aceleração absoluta do punho, e não em métricas relativas ao estado funcional do indivíduo, como porcentagem do VO₂máx, frequência cardíaca máxima ou limiares metabólicos. Como consequência, estímulos classificados como “vigorosos” podem representar cargas fisiológicas profundamente distintas entre indivíduos, funcionando, na prática, como marcadores indiretos de reserva funcional e saúde prévia. Nesse contexto, a forte associação entre atividade física vigorosa (VPA) e redução de risco pode refletir, ao menos em parte, um efeito de seleção biológica, no qual indivíduos capazes de realizar VPA já apresentam melhor integridade cardiometabólica, autonômica e musculoesquelética, independentemente do estímulo em si.

Causalidade reversa residual e achatamento da curva de baixa intensidade

Apesar das estratégias adotadas para mitigar causalidade reversa (exclusão de eventos precoces e doenças prevalentes), permanece elevada a probabilidade de viés residual, especialmente nas análises envolvendo atividade física leve (LPA) e moderada (MPA). Indivíduos com doença subclínica, inflamação crônica ou limitação funcional tendem a acumular grandes volumes de atividade leve, o que pode achatar artificialmente a inclinação das curvas dose–resposta nessas intensidades, ampliando, por contraste, a aparente “eficiência” da VPA.

Equivalência estatística não implica intercambialidade biológica

O conceito central de “equivalência” proposto no estudo deriva de igualar reduções relativas de risco obtidas em curvas ajustadas, dentro de uma faixa arbitrária de 5–35%. Essa abordagem, embora estatisticamente elegante, pressupõe implicitamente que estímulos de natureza fisiológica distinta possam ser tratados como intercambiáveis se produzirem magnitudes semelhantes de associação epidemiológica. Tal pressuposto ignora princípios fundamentais da biologia do exercício: diferentes intensidades ativam vias moleculares, respostas autonômicas, cargas mecânicas e custos de recuperação profundamente distintos. Igualar minutos de estímulo com base em hazard ratios não estabelece equivalência causal, tampouco adaptativa.

Riscos e sustentabilidade não avaliados

O estudo não considera riscos potenciais associados à ênfase em atividades vigorosas, incluindo eventos cardiovasculares agudos, lesões musculoesqueléticas, intolerância autonômica e dificuldades de adesão a longo prazo. A ausência dessas dimensões limita a aplicabilidade prática dos achados, sobretudo em populações clínicas ou envelhecidas, para as quais a segurança e a sustentabilidade do estímulo são tão relevantes quanto sua eficiência temporal.

Considerações finais

Em síntese, o trabalho de Biswas et al. representa um avanço metodológico importante para a epidemiologia baseada em dispositivos vestíveis e oferece insights relevantes para a formulação de políticas de saúde pública. Contudo, suas conclusões devem ser interpretadas estritamente dentro desse domínio. Eficiência temporal na redução de risco populacional não equivale a equivalência biológica, adaptativa ou funcional entre estímulos de diferentes intensidades. A extrapolação desses achados para modelos de treinamento, prescrição de exercício ou discussão sobre a superioridade de estratégias de alta ou baixa intensidade carece de sustentação fisiológica direta e pode induzir interpretações simplificadoras de um fenômeno biologicamente complexo. A integração entre dados epidemiológicos, fisiologia do exercício e ciência do treinamento permanece essencial para evitar que métricas de associação populacional sejam confundidas com princípios universais de adaptação humana ao exercício.

Referências:

BISWAS, Raaj Kishore; AHMADI, Matthew N.; BAUMAN, Adrian; MILTON, Karen; KOEMEL, Nicholas A.; STAMATAKIS, Emmanuel. Wearable device-based health equivalence of different physical activity intensities against mortality, cardiometabolic disease, and cancer. Nature Communications, London, v. 16, art. 8315, 2025. DOI: 10.1038/s41467-025-63475-2.