Treinamento de endurance, limites energéticos crônicos e organização do volume: princípios sustentados pela literatura e implicações para provas longas e multiesportivas

por | jan 14, 2026

A organização do treinamento de endurance de alto rendimento deve ser compreendida a partir de princípios fisiológicos gerais sustentados pela literatura científica, e não por valores absolutos ou padrões numéricos fixos de volume semanal. Estudos descritivos, análises observacionais e modelos fisiológicos convergem para a noção de que o desempenho em modalidades de endurance é limitado não apenas pela capacidade cardiorrespiratória ou metabólica, mas por um teto superior de gasto energético crônico sustentável, que impõe restrições fundamentais à forma como o volume de treinamento pode ser distribuído ao longo do tempo.

A literatura contemporânea sustenta de maneira consistente que o custo energético da corrida situa-se em torno de 1 kcal·kg⁻¹·km⁻¹, enquanto a taxa metabólica basal (TMB) de atletas de endurance masculinos situa-se tipicamente entre 1.600 e 1.800 kcal·dia⁻¹. Evidências oriundas de estudos de balanço energético de longo prazo indicam que o organismo humano apresenta um limite relativamente rígido para o gasto energético crônico sustentável, estimado em aproximadamente 2,5 vezes a TMB. Acima desse valor, mesmo em indivíduos altamente treinados e com elevada ingestão calórica, a homeostase energética não pode ser mantida indefinidamente, levando a estados de baixa disponibilidade energética, disfunções endócrinas, supressão imunológica e aumento do risco de lesões.

Esse princípio bioenergético ajuda a explicar por que a relação entre volume de treinamento e distância da prova não é escalável de forma linear entre diferentes especialidades do endurance. Em provas de meio-fundo, como os 1.500 m, o custo energético absoluto da competição é extremamente baixo quando comparado ao orçamento energético semanal do atleta. Isso permite que volumes semanais muito elevados, expressos em múltiplos da distância da prova, sejam sustentados sem violar os limites energéticos crônicos do organismo. A literatura descritiva mostra que atletas dessa especialidade acumulam grandes volumes aeróbios, não porque a prova exija longas distâncias em si, mas porque as adaptações determinantes do desempenho — capacidade oxidativa, economia de movimento, cinética rápida de VO₂ — dependem de elevada exposição aeróbia de baixo custo relativo.

À medida que a distância competitiva aumenta, como nas provas de 10 km, meia maratona e maratona, o custo energético absoluto do treinamento específico e da própria competição passa a consumir uma fração progressivamente maior do orçamento energético diário. A literatura não define volumes semanais normativos para essas especialidades, mas descreve faixas amplas e elevada variabilidade interindividual. Alguns atletas focados em provas intermediárias podem, em determinados períodos, treinar volumes semelhantes aos de maratonistas, enquanto outros apresentam volumes significativamente menores. O ponto central sustentado pela literatura não é o valor absoluto do volume, mas o fato de que, conforme a distância da prova aumenta, a margem energética para ampliar o treinamento se reduz, comprimindo inevitavelmente a relação entre volume semanal e distância competitiva.

Essa compressão torna-se ainda mais evidente no contexto da maratona, onde atletas de elite frequentemente operam próximos ao limite superior de gasto energético crônico sustentável. Nessa especialidade, aumentos adicionais de volume não são limitados primariamente por incapacidade cardiorrespiratória, mas pelo risco de ultrapassar o teto energético crônico, com consequências sistêmicas bem documentadas. Assim, o treinamento da maratona ilustra de forma clara que o desempenho em endurance não é apenas uma questão de “quanto se pode treinar”, mas de “quanto se pode sustentar cronicamente”.

O caso do Ironman representa a expressão mais extrema dessa lógica fisiológica. A combinação de três modalidades, cada uma com elevado custo energético absoluto, torna inviável qualquer abordagem baseada na maximização simultânea do volume em todas as disciplinas. A literatura não estabelece padrões numéricos fixos de treinamento para o Ironman, mas descreve estratégias recorrentes entre atletas bem-sucedidos, como a predominância de intensidades muito baixas, a transferência do volume para modalidades metabolicamente mais econômicas — especialmente o ciclismo — e a limitação deliberada do volume de corrida para preservar a sustentabilidade energética e ortopédica.

Dentro dessa estrutura, abordagens como a periodização em blocos com ênfase modal encontram sólido respaldo conceitual. Ao concentrar temporariamente o estímulo em uma modalidade, enquanto as demais são mantidas em volumes mínimos eficazes, o atleta consegue aprofundar adaptações específicas sem elevar de forma desproporcional o custo energético global. À medida que o período competitivo se aproxima, ocorre uma reorganização do treinamento em direção a volumes integrados que reflitam ordens de grandeza frequentemente observadas em atletas bem treinados, sempre respeitando o limite imposto pelo gasto energético crônico sustentável. Esses valores devem ser entendidos como exemplos ilustrativos de viabilidade fisiológica, e não como prescrições normativas ou consensuais.

Em síntese, a literatura atual sustenta que o treinamento de endurance de alto rendimento deve ser interpretado como um problema de otimização energética de longo prazo. Provas curtas permitem volumes relativos muito elevados porque o custo energético absoluto da competição é pequeno. Provas longas e multiesportivas comprimem drasticamente essa relação porque o organismo opera próximo ao teto de gasto energético crônico sustentável. No Ironman, em particular, o sucesso competitivo depende menos da acumulação indiscriminada de volume e mais da capacidade de distribuir inteligentemente o estresse adaptativo no tempo, respeitando os limites fundamentais do metabolismo humano.

Referências

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