A maratona constitui, talvez de forma mais clara do que qualquer outra modalidade atlética, um experimento fisiológico extremo de integração sistêmica prolongada. Diferentemente de provas de curta duração, nas quais o desempenho pode ser explicado por picos transitórios de potência metabólica, a maratona impõe ao organismo humano a necessidade de sustentar, por mais de duas horas nos melhores casos, uma taxa elevada e relativamente estável de produção aeróbia de ATP, sob restrições impostas simultaneamente pelo sistema cardiovascular, pelo metabolismo muscular, pela termorregulação e, de forma cada vez mais reconhecida na literatura contemporânea, pelo orçamento energético diário total disponível ao longo de dias, meses e décadas. A análise integrada dos estudos aqui considerados permite compreender a maratona não apenas como uma expressão do VO₂máx, do limiar do lactato ou da economia de corrida, mas como o resultado emergente de uma arquitetura fisiológica moldada pelo sexo biológico, pela idade, pela história de treinamento, pelas transformações socioculturais do esporte moderno e pelos limites evolutivos da persistência energética humana.
O arcabouço conceitual clássico que ainda estrutura grande parte da discussão sobre desempenho na maratona foi formulado de maneira particularmente elegante por Joyner e refinado de forma empírica por Jones em sua análise seminal da fisiologia da então recordista mundial feminina, Paula Radcliffe. Nesse modelo, a velocidade média sustentável na maratona emerge da interação entre três determinantes centrais: o VO₂máx, entendido como o teto absoluto da taxa de ressíntese aeróbia de ATP; a fração desse VO₂máx que pode ser utilizada de forma estável sem acúmulo progressivo de lactato, frequentemente operacionalizada por limiares ventilatórios ou metabólicos; e o custo energético da corrida, isto é, a economia de movimento. A contribuição decisiva do trabalho de Jones não reside apenas na descrição desses parâmetros isoladamente, mas na demonstração de que melhorias substanciais no desempenho de elite podem ocorrer mesmo na ausência de aumentos relevantes no VO₂máx, desde que haja reduções marcantes no custo energético da locomoção. No caso de Radcliffe, uma melhora aproximada de 15% na economia de corrida ao longo de pouco mais de uma década de treinamento altamente direcionado permitiu sustentar velocidades mais elevadas com uma mesma fração do teto aeróbio, redefinindo os limites do desempenho feminino na prova e ilustrando de forma didática como eficiência pode, em certos contextos, superar potência máxima como fator limitante do rendimento.
Quando esse modelo fisiológico é confrontado com dados contemporâneos de corredores masculinos e femininos de classe mundial, como nos estudos recentes com atletas do Leste Africano, observa-se uma confirmação notável de sua validade, ainda que com nuances importantes. Esses atletas frequentemente apresentam valores de VO₂pico elevados, porém não extraordinários quando comparados a estimativas teóricas históricas, enquanto exibem uma combinação rara de altíssima fração utilizável do VO₂pico em intensidades próximas ao segundo limiar ventilatório e uma economia de corrida excepcional. A discrepância mínima entre tempos previstos por modelos fisiológicos integrativos e os melhores tempos reais desses atletas reforça a ideia de que, na maratona moderna, o desempenho não é limitado apenas pela capacidade máxima de transporte de oxigênio, mas pela eficiência com que esse oxigênio é convertido em trabalho mecânico útil ao longo de dezenas de milhares de ciclos de passada. Um exemplo didático desse princípio pode ser observado ao comparar dois corredores hipotéticos com VO₂máx semelhantes, mas economias de corrida distintas: aquele que consome menos oxigênio por quilômetro percorrido poderá sustentar uma velocidade superior com o mesmo custo metabólico relativo, acumulando vantagem decisiva ao longo dos 42,195 km.
As diferenças entre homens e mulheres, frequentemente reduzidas de forma simplista a percentuais médios de diferença no VO₂máx relativo à massa corporal, revelam-se consideravelmente mais complexas quando analisadas sob uma perspectiva mecanicista integrada. Comentários clássicos sobre o “equivalente fisiológico” de uma maratona sub-2 horas para mulheres mostram que, assumindo economias de corrida e frações de utilização semelhantes entre os sexos, a principal variável discriminante permanece sendo o VO₂máx absoluto e relativo, fortemente influenciado por diferenças na massa magra total, no volume sistólico máximo e na concentração total de hemoglobina. Ainda assim, o desempenho de atletas como Radcliffe demonstra que mulheres podem operar por longos períodos em frações extremamente elevadas do VO₂máx, com notável estabilidade metabólica, questionando interpretações reducionistas que atribuem as diferenças de desempenho exclusivamente a limitações cardiovasculares centrais.
A persistência histórica de um hiato relativamente estável entre recordes masculinos e femininos, conforme demonstrado em análises críticas recentes sobre progressão de recordes e viés de pesquisa, sugere que tais diferenças não decorrem de um atraso cultural ou metodológico no treinamento feminino contemporâneo, mas refletem restrições fisiológicas estruturais robustas, ainda que moduláveis. O fechamento rápido da lacuna observado até os anos 1980 coincide com o ingresso tardio das mulheres em competições oficiais e com ganhos iniciais decorrentes de aumento da base de praticantes, acesso a treinamento sistemático e maior densidade competitiva. A estabilização subsequente aponta para limites biológicos que se manifestam mesmo em contextos de treinamento avançado, profissionalização do esporte e inovação tecnológica, reforçando a necessidade de interpretar tendências históricas à luz da fisiologia comparada e não apenas de narrativas progressistas de desempenho.
A dimensão etária adiciona outra camada de complexidade à fisiologia da maratona. Estudos envolvendo atletas master e ex-recordistas mundiais acompanhados ao longo de décadas mostram que o declínio do VO₂máx com a idade, frequentemente estimado entre 0,5 e 1% ao ano a partir da terceira década de vida, não implica necessariamente um colapso proporcional do desempenho funcional. A manutenção de volumes elevados de treinamento aeróbio está associada a remodelamento cardíaco excêntrico pronunciado, preservação de volumes sistólicos elevados e, de forma particularmente relevante para a maratona, a uma notável conservação da economia de corrida. Em corredores septuagenários detentores de recordes mundiais, observa-se que velocidades de maratona podem ser sustentadas a frações do VO₂máx comparáveis às de atletas muito mais jovens, compensando parcialmente o declínio do teto aeróbio por meio de eficiência mecânica superior e elevada predominância de fibras musculares do tipo I. Um exemplo didático desse fenômeno é o caso recente de uma corredora de 76 anos recordista mundial em múltiplas distâncias, que apresenta valores de fração utilizável do VO₂máx em ritmo de maratona superiores a 85%, patamar típico de atletas de elite jovens, apesar de um VO₂máx absoluto inevitavelmente reduzido pela idade.
Essas observações convergem para um ponto central frequentemente negligenciado em análises isoladas de desempenho: a maratona não é limitada apenas por parâmetros máximos medidos em testes incrementais, mas pelo custo cumulativo de sustentar elevados fluxos energéticos dentro de um orçamento diário e vitalício finito. Trabalhos recentes sobre fisiologia do endurance extremo e do ultraendurance reforçam a noção de que existe um limite superior para o gasto energético diário sustentável, situado em torno de 2,5 a 3 vezes o metabolismo basal, acima do qual o organismo não consegue manter, por períodos prolongados, o equilíbrio entre ingestão, absorção e utilização de energia. Embora a maratona, enquanto evento agudo, possa ultrapassar temporariamente esse limiar, o treinamento necessário para competir em alto nível impõe, cronicamente, demandas energéticas que se aproximam desse teto, especialmente em atletas de elite e em indivíduos mais velhos, nos quais a flexibilidade metabólica tende a ser menor.
Sob essa perspectiva, diferenças sexuais e etárias no desempenho passam a ser interpretadas também como diferenças na margem disponível dentro do orçamento energético total. Mulheres, em média, apresentam menor gasto energético absoluto máximo, o que pode limitar o volume de trabalho mecânico sustentável em intensidades elevadas, mesmo quando a eficiência relativa é alta. Da mesma forma, o envelhecimento pode reduzir a capacidade de absorção e redistribuição energética e aumentar o custo relativo de processos acessórios, como a termorregulação e o trabalho ventilatório, tornando a economia de movimento e a gestão do ritmo ainda mais críticas para o sucesso em provas longas. Fatores ambientais, como temperatura e umidade, interagem de forma decisiva com esse quadro ao modificar o custo termorregulatório do exercício. Evidências oriundas de análises históricas da Maratona de Berlim indicam que homens e mulheres atingem desempenhos máximos sob condições térmicas distintas, sugerindo diferenças sexuais na dissipação de calor e na tolerância ao estresse térmico, o que reforça a ideia de que o desempenho na maratona resulta de uma negociação fisiológica contínua entre produção de energia mecânica e custos acessórios que competem pelo mesmo orçamento energético.
Os estudos com corredores recreacionais ampliam ainda mais essa interpretação integrada, ao demonstrar que, fora do contexto de elite, os determinantes clássicos do desempenho mantêm sua relevância, mas são fortemente modulados por variáveis comportamentais e estruturais do treinamento. Em grupos distribuídos por faixas de tempo final, observa-se que a velocidade média de prova se correlaciona fortemente com a posição relativa dos limiares metabólicos e com a economia de corrida, enquanto o VO₂máx, embora importante, perde poder discriminativo isolado. A frequência semanal de treino e a velocidade absoluta das sessões emergem como fatores decisivos, sugerindo que, em populações recreacionais, a limitação primária não é o teto fisiológico máximo, mas a incapacidade de sustentar adaptações periféricas suficientes para deslocar os limiares e reduzir o custo metabólico da corrida. De forma didática, isso explica por que dois corredores com VO₂máx semelhantes podem apresentar diferenças de dezenas de minutos no tempo final de maratona, em função de histórias de treinamento e eficiência distintas.
A incorporação de modelos empíricos de desempenho baseados em recordes mundiais ao longo de diferentes distâncias, idades e sexos adiciona uma dimensão conceitual particularmente poderosa a essa discussão. O modelo que descreve a relação logarítmica entre velocidade e distância mostra que, na maratona, onde a contribuição anaeróbia é mínima, a velocidade sustentável aproxima-se de uma potência aeróbia crítica modulada por fatores etários e sexuais. A queda progressiva da velocidade com a idade pode ser representada por um fator multiplicativo que se acentua em idades avançadas, refletindo a maior sensibilidade do sistema cardiovascular e muscular ao envelhecimento. A elegância desses modelos reside em traduzir observações históricas de desempenho em parâmetros fisiologicamente interpretáveis, permitindo comparar homens e mulheres não como categorias estanques, mas como expressões distintas de uma mesma equação metabólica fundamental.
O debate em torno da possibilidade de um desempenho feminino “equivalente” a uma maratona masculina sub-2 horas ilustra, de forma exemplar, os riscos de extrapolações fisiológicas descontextualizadas. Análises que combinam tendências históricas, modelos matemáticos e dados reais de recordes mostram que tal equivalência exigiria uma inversão inédita e improvável das trajetórias de progresso entre os sexos, além da convergência de parâmetros fisiológicos extremos ainda não observados simultaneamente em um único indivíduo. Mais do que um exercício especulativo, esse debate evidencia que os limites do desempenho humano emergem da convergência entre fisiologia, história, estatística e energia disponível, e não de recordes isolados analisados fora de seu contexto biológico e temporal.
A integração de todos esses achados revela a maratona como um modelo privilegiado para compreender os limites e as possibilidades da adaptação humana ao esforço prolongado. O desempenho emerge da interação entre teto aeróbio, fração utilizável desse teto, economia de movimento, estabilidade metabólica, história de treinamento, sexo biológico, envelhecimento e restrições impostas pelo orçamento energético diário. A maratona não premia apenas quem possui o maior VO₂máx, mas quem consegue transformar, com maior eficiência e menor custo, energia metabólica em deslocamento sustentado ao longo do tempo. Diferenças entre homens e mulheres, entre jovens e idosos, entre elite e recreacionais, não representam hierarquias simples de capacidade, mas soluções fisiológicas distintas para o mesmo problema biológico fundamental: persistir em movimento sem romper a coerência sistêmica que sustenta a vida. Nesse sentido, a maratona deixa de ser apenas uma competição esportiva e se consolida como um experimento natural de biologia integrativa, no qual potência, eficiência, tempo e energia dialogam de forma indissociável.
Em última instância, a maratona ensina que o limite humano não é definido apenas pelo quanto se pode produzir de energia, mas por quão inteligentemente essa energia pode ser sustentada, distribuída e economizada ao longo do tempo.
Referências
EMIG, T.; ADAM, G. Evolution of world running record performances for men and women: physiological characteristics. Frontiers in Physiology, v. 15, 2024.
FOULKES, S. J. et al. Lifelong physiology of a former marathon world-record holder: the pros and cons of extreme cardiac remodeling. Journal of Applied Physiology, v. 137, p. 461–472, 2024.
GORDON, D. et al. Physiological and training characteristics of recreational marathon runners. Open Access Journal of Sports Medicine, v. 8, p. 231–241, 2017.
JONES, A. M. The physiology of the world record holder for the women’s marathon. International Journal of Sports Science & Coaching, v. 1, n. 2, p. 101–116, 2006.
JOYNER, M. J. Physiological limits to endurance exercise performance: influence of sex. The Journal of Physiology, v. 595, n. 9, p. 2949–2954, 2017.
KNECHTLE, B.; NIKOLAIDIS, P. T. Physiology and pathophysiology in ultra-marathon running. Frontiers in Physiology, v. 9, 2018.
LEGÁZ ARRESE, A. et al. Physiological measures associated with marathon running performance in high-level male and female homogeneous groups. International Journal of Sports Medicine, v. 27, p. 289–295, 2006.
NIKOLAIDIS, P. T.; KNECHTLE, B. Physiology of marathon: a narrative review of runners’ profile and predictors of performance. Physiologia, v. 4, p. 317–326, 2024.
ROHRER, D. Researcher bias and the enduring gap between the world’s fastest men and women. Frontiers in Physiology, v. 15, 2024.
ROY, T. K. et al. An empirical model for world record running speeds with distance, age, and sex. Journal of Applied Physiology, v. 137, p. 357–363, 2024.
SCHEER, V. et al. The optimal ambient conditions for world record and world class performances at the Berlin Marathon. Frontiers in Physiology, v. 12, 2021.
TUCKER, R.; SANTOS-CONCEJERO, J. An imminent sub-2-hours marathon is unlikely: historical trends of the gender gap in running events. International Journal of Sports Physiology and Performance, 2016.
VAN HOOREN, B. et al. A case report of the female world record holder from 1,500 m to the marathon in the 75–79 yr age category. Journal of Applied Physiology, v. 138, p. 603–611, 2025.