Quando o Calor Sussurra aos Rins: Aquecimento Pós-Exercício, Eritropoietina e a Plasticidade do Transporte de Oxigênio

por | dez 15, 2025

A fisiologia do exercício sempre reconheceu no calor um agente ambíguo, cuja atuação oscila entre ameaça à homeostase e potente sinal adaptativo. Ao longo de décadas, o estresse térmico foi tradicionalmente associado à fadiga precoce, ao risco cardiovascular e à desidratação. No entanto, avanços conceituais na fisiologia integrativa têm demonstrado que o calor, quando aplicado de forma controlada, repetida e contextualizada, pode assumir um papel regulatório sofisticado. No cenário pós-exercício, o aquecimento corporal induzido — em especial por meio da sauna — deixa de ser compreendido como mero ritual cultural ou estratégia de relaxamento passivo e passa a se revelar como um estímulo biológico organizado, capaz de dialogar de maneira sistêmica com mecanismos centrais de regulação hematológica e cardiovascular.

Estudos contemporâneos indicam que o calor, quando aplicado de forma repetida após o exercício, cria um microambiente fisiológico singular, no qual hemodinâmica, controle do volume plasmático, sinalização renal e processos eritropoiéticos se entrelaçam de modo não trivial. Trata-se de um cenário no qual respostas agudas e adaptações crônicas coexistem, mediadas por alterações no estado térmico, no balanço hídrico e na perfusão tecidual, exigindo uma leitura que ultrapasse explicações lineares simplificadas.

Após o exercício físico, sobretudo quando realizado em intensidades moderadas a elevadas, o organismo encontra-se em um estado caracterizado por elevação da temperatura central, aumento do débito cardíaco e redistribuição significativa do fluxo sanguíneo em direção à periferia, favorecendo os mecanismos de dissipação de calor. Esse estado fisiológico transitório é marcado por vasodilatação cutânea pronunciada, aumento da condutância vascular periférica e elevação da taxa de sudorese. A exposição subsequente à sauna amplifica e prolonga esse ambiente térmico, intensificando a vasodilatação periférica, o estresse cardiovascular submáximo e a perda hídrica induzida pelo calor.

Essa combinação de exercício prévio e aquecimento passivo resulta, inicialmente, em uma redução transitória do volume plasmático efetivo, associada à sudorese e à redistribuição de fluidos para o compartimento intersticial. Tal redução é frequentemente interpretada como um estado de “hemodiluição funcional”, que, embora diminua temporariamente o volume circulante, desencadeia uma cascata de respostas compensatórias. Nas horas e dias subsequentes, observa-se uma expansão adaptativa do volume plasmático, mediada por retenção renal de sódio e água, aumento da síntese e da concentração de albumina plasmática e ajustes finos no eixo hormonal envolvendo aldosterona e vasopressina. Esse processo resulta em aumento sustentado do volume sanguíneo total, com implicações diretas para a função cardiovascular e o transporte de oxigênio.

É nesse contexto que o rim emerge não apenas como órgão excretor, mas como um sofisticado sensor e integrador fisiológico. A expansão do volume plasmático promove uma redução relativa do hematócrito e, consequentemente, da concentração de hemoglobina por unidade de volume sanguíneo. Paradoxalmente, essa redução não representa um prejuízo funcional imediato; ao contrário, constitui um sinal fisiológico relevante. As células intersticiais peritubulares renais, localizadas em regiões particularmente sensíveis às variações da pressão parcial de oxigênio e ao conteúdo arterial de O₂, respondem a essa alteração ativando vias moleculares dependentes do fator induzível por hipóxia, especialmente o HIF-2α. A ativação desse eixo culmina no aumento da transcrição e da secreção de eritropoietina (EPO), hormônio central na regulação da eritropoiese.

Diferentemente da hipóxia clássica observada em ambientes de altitude, na qual a redução da pressão inspirada de oxigênio constitui o estímulo primário e dominante, o aquecimento pós-exercício parece operar por meio de uma combinação mais sutil e integrada de sinais fisiológicos. Entre esses sinais destacam-se a hemodiluição relativa, a redistribuição do fluxo sanguíneo renal, o aumento da temperatura tecidual local e a possível elevação do consumo metabólico renal. Essa constelação de fatores cria um ambiente no qual o rim interpreta uma redução funcional da oferta de oxigênio, mesmo na ausência de hipóxia ambiental propriamente dita.

Estudos que mensuraram concentrações séricas de EPO após intervenções com sauna pós-exercício descrevem elevações modestas, porém fisiologicamente coerentes, sobretudo quando o estímulo térmico é aplicado de forma repetida ao longo de semanas. Embora nem todos os trabalhos demonstrem aumentos expressivos ou consistentes da EPO circulante ou da massa total de hemoglobina, a direção adaptativa observada sugere a criação de um ambiente permissivo à eritropoiese, no qual pequenos estímulos reiterados podem, ao longo do tempo, resultar em adaptações hematológicas mensuráveis.

Com a manutenção crônica desse estímulo térmico, alguns estudos relatam incrementos no volume de hemácias e na massa total de hemoglobina, particularmente quando o estresse térmico é suficientemente intenso e frequente, como observado em protocolos regulares de sauna ou em treinamentos realizados com vestimentas térmicas específicas. O aumento do número absoluto de eritrócitos eleva a capacidade total de transporte de oxigênio do sangue, favorecendo o fornecimento periférico durante o exercício aeróbio prolongado e potencialmente contribuindo para melhorias no desempenho de endurance, ainda que tais ganhos nem sempre sejam detectáveis em testes funcionais de curto prazo ou em amostras reduzidas.

Nesse cenário, a sauna destaca-se pela sua notável praticidade e aplicabilidade. Trata-se de uma intervenção de custo relativamente baixo, com elevada aderência cultural em diversos países e mínima interferência na carga externa de treinamento. Diferentemente do treinamento em altitude, não exige deslocamentos geográficos, períodos prolongados de aclimatação ou reduções substanciais na intensidade do exercício. Estudos experimentais demonstram que a sauna pós-exercício pode promover expansão do volume plasmático, melhorias na tolerância ao calor, adaptações cardiovasculares relevantes e ajustes positivos na economia do exercício, tanto em ambientes quentes quanto temperados.

Todavia, a hipótese de que a sauna possa mimetizar plenamente os efeitos do treinamento em altitude deve ser analisada com rigor crítico. A altitude atua primariamente por meio de hipóxia sistêmica sustentada, promovendo ativações robustas e prolongadas do eixo HIF–EPO, com efeitos consistentes sobre a massa total de hemoglobina em muitos atletas. O aquecimento pós-exercício, por sua vez, parece operar por mecanismos indiretos e menos intensos, nos quais a hemodiluição, o estresse cardiovascular e a termorregulação ocupam papel central. Revisões sistemáticas recentes indicam que os efeitos hematológicos do aquecimento passivo são heterogêneos, fortemente dependentes do protocolo adotado e, em muitos casos, modestos quando comparados aos observados em intervenções realizadas em altitude.

Assim, mais do que um substituto direto do treinamento em altitude, a sauna pós-exercício deve ser compreendida como uma estratégia complementar. Seu valor reside menos na promessa de uma suposta “hipóxia térmica” equivalente e mais na capacidade de modular, de forma integrada, o volume sanguíneo, o estresse cardiovascular e o ambiente hormonal, criando condições fisiológicas favoráveis à adaptação hematológica ao longo do tempo. O calor, nesse sentido, não imita a montanha; ele escreve sua própria linguagem fisiológica, com gramática e semântica próprias.

Em conclusão, o aquecimento corporal pós-exercício emerge como um estímulo biológico refinado, capaz de envolver o rim em um diálogo adaptativo que toca a eritropoietina, a eritropoiese e a plasticidade do transporte de oxigênio. A sauna, prática ancestral, revela-se surpreendentemente moderna quando reinterpretada à luz da fisiologia integrativa contemporânea. Não como um atalho simplista para os efeitos da altitude, mas como mais um instrumento na orquestra complexa das adaptações humanas ao exercício — na qual o calor, longe de ser ruído, atua como um sinal inteligível que ensina o organismo a sustentar a vida em movimento.

 

Referências

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