AINDA A FADIGA: FRONTEIRAS BIOLÓGICAS DO ESFORÇO E DA SOBREVIVÊNCIA

por | nov 27, 2025

A compreensão da fadiga em animais demanda uma abordagem integrada que articula fisiologia comparada, neurociência, bioenergética e psicobiologia. A partir dessas áreas, observa-se que a fadiga não decorre de um único locus — muscular, neural ou metabólico — mas emerge da interação coordenada entre múltiplos sistemas que evoluíram para proteger a homeostase diante de estressores ambientais e fisiológicos. O estudo comparado entre espécies permite reconhecer princípios gerais, limites adaptativos e mecanismos específicos que fundamentam a expressão da fadiga tanto em animais quanto em seres humanos.

No campo da fisiologia comparada, destaca-se que a tolerância ao esforço sustentado antes da instalação da fadiga é profundamente modulada por dois fatores essenciais: temperatura corporal e tamanho corporal. O controle térmico regula a velocidade das reações químicas envolvidas no metabolismo do exercício. Espécies homeotérmicas, como aves migratórias e mamíferos corredores, conseguem manter elevada produção de energia graças à estabilidade térmica interna, que previne oscilações enzimáticas capazes de comprometer a força muscular. Em contraste, animais pecilotérmicos, como peixes e répteis, apresentam resistência fortemente condicionada às temperaturas do ambiente, uma vez que seu metabolismo varia conforme a temperatura externa. O efeito Q10 — que expressa quanto a taxa metabólica se altera a cada variação de 10 °C — mostra que muitas reações químicas praticamente dobram de velocidade, aumentando-se por um fator médio aproximado de 2 a 2,3, o que acelera ou retarda a fadiga de acordo com as exigências ambientais e com a fisiologia da espécie.

A alometria metabólica também desempenha papel determinante nesse contexto. Animais de menor massa corporal apresentam maior razão superfície-volume, o que leva a maior perda de calor para o ambiente e maior custo energético para manter a homeotermia. Paralelamente, a quantidade absoluta de reservas energéticas é menor, e a taxa metabólica de repouso, proporcionalmente maior. Como consequência, animais pequenos tipicamente atingem mais rapidamente a exaustão fisiológica, pois o custo energético relativo do movimento e da termorregulação é mais elevado. Esses princípios se aplicam igualmente a seres humanos: indivíduos de menor massa corporal, em determinadas condições ambientais, podem fatigar-se mais rapidamente devido à maior demanda relativa de energia.

Sob a perspectiva neurofisiológica, a regulação da fadiga envolve mecanismos centrais complexos que modulam a intensidade do esforço para preservar a integridade do organismo. O sistema nervoso monitora continuamente sinais periféricos e metabólicos e promove ajustes comportamentais antecipatórios. Um dos mecanismos fisiológicos que sustentam essa comunicação é o disparo aferente dos grupos III e IV de fibras sensoriais musculares, que transmitem ao cérebro informações sobre tensão mecânica, acúmulo de metabólitos, temperatura muscular e estado energético local. Esses sinais regulam a sensação de esforço, modulam a motivação e influenciam decisões motoras, ajustando a intensidade do exercício antes que a homeostase seja ameaçada. Fenômenos semelhantes são observados na natureza: aves migratórias modificam intensidade e rotas de voo diante de alterações fisiológicas e ambientais; mamíferos marinhos ajustam mergulhos para evitar hipóxia crítica; e outros vertebrados interrompem a atividade locomotora ao detectar sinais periféricos que sugerem risco fisiológico iminente.

A fadiga apresenta duas dimensões inter-relacionadas: a fadigabilidade de performance e a fadigabilidade percebida. A fadigabilidade de performance refere-se às alterações objetivas que reduzem a capacidade de produzir força ou potência, incluindo depleção de substratos energéticos, redução da ativação neural, distúrbios da excitabilidade membranar e acúmulo de metabólitos. Já a fadigabilidade percebida corresponde à experiência subjetiva do esforço, modulada por glicemia, temperatura, dor, estresse psicológico e estado motivacional. Em animais sociais, essa dimensão também é influenciada por fatores comportamentais, como hierarquia, pressão predatória e competição por recursos. Assim, animais com capacidades fisiológicas semelhantes podem apresentar tolerâncias ao esforço muito distintas em função do contexto ambiental e cognitivo.

Entre os mecanismos celulares que contribuem para a instalação da fadiga, destaca-se o papel das espécies reativas de oxigênio (ROS). A contração muscular, independentemente da espécie — seja um peixe nadando contra a corrente, um cavalo em galope ou um humano correndo — aumenta a produção de ROS por mitocôndrias, sarcolema e sistemas enzimáticos redox. Em concentrações moderadas, essas moléculas desempenham funções sinalizadoras essenciais para adaptações ao exercício, incluindo biogênese mitocondrial, aumento da capacidade oxidativa e fortalecimento dos sistemas antioxidantes. Contudo, níveis excessivos levam ao estresse oxidativo, caracterizado por peroxidação lipídica, dano a proteínas contráteis, distúrbios na homeostase do cálcio e redução da força muscular. A intensidade do exercício influencia diretamente esse balanço: esforços moderados tendem a favorecer produção adaptativa de ROS, enquanto esforços muito intensos ou prolongados ultrapassam a capacidade de tamponamento antioxidante, produzindo danos celulares e acelerando a fadiga.

A integração dessas perspectivas revela que a fadiga é um fenômeno multissistêmico que combina componentes bioenergéticos, termorregulatórios, neurais, oxidativos e comportamentais. Espécies expostas evolutivamente a demandas extremas — como longas migrações, mergulhos profundos ou corridas de fuga — desenvolveram mecanismos refinados que modulam a fadiga de forma adaptativa. Em humanos, as mesmas bases fisiológicas se expressam durante o exercício, mas são moduladas por fatores cognitivos, culturais e emocionais, tornando a fadiga um fenômeno biopsicossocial.

Do ponto de vista comparado, observa-se que espécies com elevada eficiência metabólica (aves migratórias), sofisticado controle térmico (mamíferos homeotérmicos), alta economia locomotora (cangurus) ou tolerância aumentada à hipóxia (mamíferos marinhos) apresentam estratégias evolutivas que reduzem o impacto dos mecanismos que frequentemente precipitam a fadiga em humanos. Ainda assim, a fadiga persiste como mecanismo universal e protetivo, ajustado às necessidades ecológicas e fisiológicas de cada espécie.

Em síntese, os mecanismos de fadiga em animais evidenciam princípios universais que incluem: (1) limitações bioenergéticas e acúmulo de metabólitos; (2) modulação neural e emocional do esforço sustentada por comunicação periférico-central; (3) influência decisiva da temperatura corporal e do tamanho corporal; (4) papel dual e regulatório das espécies reativas de oxigênio; e (5) interação entre fadigabilidade percebida e fadigabilidade de performance. Esses mecanismos convergem de forma particularmente relevante para os seres humanos, nos quais a complexidade neurocognitiva amplia a expressão e o significado funcional da fadiga.

Referências:

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Crédito da foto: Action Images / Henry Browne Livepic.