O Ventrículo Direito como Eixo Central da Adaptação Cardiovascular no Endurance: Fisiologia, Sobrecarga e Remodelamento

por | nov 20, 2025

A prática sistemática de esportes de endurance gera um remodelamento cardíaco hoje amplamente caracterizado e tradicionalmente referido como “coração de atleta”. Por décadas, a maior parte desse conhecimento derivou sobretudo da observação do ventrículo esquerdo. Contudo, evidências mais recentes demonstram que o ventrículo direito (VD) e a circulação pulmonar não apenas se adaptam de forma expressiva ao treinamento, como podem representar o verdadeiro “calcanhar de Aquiles” da fisiologia cardíaca no atleta de resistência.

Do ponto de vista hemodinâmico, a lógica é simples e contundente. Em repouso, o VD trabalha contra uma circulação pulmonar de baixa resistência e alta complacência. À medida que a intensidade do exercício aumenta, o débito cardíaco cresce de maneira acentuada e a pressão arterial pulmonar acompanha essa elevação de forma quase linear. A resistência vascular pulmonar reduz-se apenas modestamente, fazendo com que o estresse de parede do VD aumente de maneira muito superior ao observado no ventrículo esquerdo. Enquanto o VE se beneficia da queda da pós-carga sistêmica induzida pela vasodilatação periférica, o VD enfrenta uma pós-carga progressivamente maior: elevação das pressões pulmonares, incremento do gradiente ventrículo–artéria pulmonar e necessidade de gerar maior tensão sistólica a cada batimento.

Esse desbalanço de carga ajuda a explicar por que, após provas prolongadas (≥ 90 minutos, como maratonas, triatlos longos, ciclismo de endurance e ultra-endurance), surgem achados consistentes de “fadiga” transitória do VD. Meta-análises de ecocardiografia e ressonância magnética mostram, logo após o esforço, dilatação aguda da câmara direita, redução da fração de ejeção e da fração de área (RVFAC), queda do TAPSE e piora de índices de deformação (strain). Em contraste, o ventrículo esquerdo mantém função sistólica praticamente estável.

Quando se examina o VD com técnicas mais sensíveis, particularmente o speckle tracking, o panorama ganha nuances relevantes. Atletas de endurance apresentam, em repouso, um VD ampliado em todas as dimensões – inflow, outflow, área diastólica, comprimento – frequentemente excedendo limites tidos como “normais” para populações sedentárias e, por vezes, cruzando valores próximos aos critérios utilizados para cardiomiopatia arritmogênica. Ainda assim, os índices de strain global e segmentar usualmente se mantêm normais ou discretamente aumentados, caracterizando uma hipertrofia excêntrica funcional: grande cavidade, mas com capacidade preservada de encurtamento e eficiência mecânica adequada.

A partir desse ponto, a questão passa a ser essencialmente fisiológica: que tipo de estresse agudo e crônico o VD enfrenta e como esse estresse molda sua morfologia e sua função? Em eventos prolongados, a combinação de débito cardíaco muito elevado, pressões pulmonares persistentemente altas, desidratação relativa, alterações de pré-carga e ativação neuro-hormonal coloca o VD sob carga contínua. Estudos com ressonância em exercício demonstram que, ao final desses eventos, o VD apresenta maiores volumes diastólico e sistólico, além de queda mais evidente na fração de ejeção, sobretudo quando submetido novamente a intensidade elevada. O VE, nas mesmas condições, quase não se altera. Esses achados evidenciam a instalação de fadiga contrátil do VD: sob pós-carga elevada e sustentada, sua capacidade de esvaziamento sistólico se reduz. O acoplamento ventrículo–artéria piora, refletindo menor relação SV/ESV e maior volume residual ao final de cada sístole.

Meta-análises recentes quantificam esse fenômeno agudo de modo consistente: queda da RVFAC entre 4–6 pontos percentuais, redução do TAPSE de alguns milímetros, diminuição de 8–10 pontos percentuais na fração de ejeção do VD e piora leve, porém reprodutível, do strain longitudinal global. Os efeitos são mais pronunciados em provas de ultra-endurance (≥ 4 horas) e em atletas com maior volume semanal de treinamento, indicando relação dose–resposta tanto para a carga aguda quanto para a crônica.

Importante salientar que esse “insulto” é amplamente reversível. A maioria dos estudos mostra completa normalização da função do VD dentro de aproximadamente uma semana, com recuperação do strain, RVFAC e fração de ejeção aos valores basais. Trata-se de uma fadiga funcional, similar ao que ocorre no músculo esquelético após um estímulo extremo: queda transitória de desempenho, mas com retorno ao baseline e, a longo prazo, adaptação.

Ainda assim, quando esse padrão de sobrecarga se repete por muitos anos, há indícios de que uma minoria de atletas possa evoluir com remodelamento estrutural e elétrico menos favorável. Em indivíduos com arritmias originadas no VD, avaliações durante esforço revelam menor reserva contrátil: respostas atenuadas de fração de área, strain e acoplamento ventrículo–artéria, além de menor capacidade de reduzir o volume sistólico final. Ou seja, o exercício expõe um déficit funcional não detectado em repouso, possivelmente relacionado à repetição crônica de estresse hemodinâmico extremo.

Na população geral de atletas de endurance, estudos de grande escala mostram que mais da metade apresenta dimensões de VD acima dos limites normativos para sedentários, e parte deles atinge patamares que, fora do contexto esportivo, seriam interpretados como patológicos. Entretanto, o padrão de remodelamento é, em regra, harmonioso: VE e átrio esquerdo aumentam proporcionalmente ao VD quando analisados com correções alométricas adequadas. O traço distintivo é que, apesar do grande volume das câmaras, os índices de função permanecem normais.

Mecanisticamente, o VD do atleta opera como um “órgão de fronteira” entre adaptação eficiente e sobrecarga. A elevação crônica do estresse mecânico ativa vias de mecanotransdução – integrinas, calcineurina–NFAT, MAP-kinases – que promovem hipertrofia excêntrica, reorganização da matriz extracelular e, ocasionalmente, fibrose focal. Em paralelo, o estresse repetitivo afeta homeostase de cálcio, acoplamento excitação–contração e integridade dos desmossomos, criando um substrato elétrico mais vulnerável em indivíduos suscetíveis. A maioria, porém, mantém uma câmara altamente eficiente, capaz de sustentar débitos elevados por horas; alguns poucos, entretanto, manifestam reserva reduzida e maior predisposição à instabilidade elétrica.

Outro ponto crucial é que as adaptações do VD não são homogêneas. Estudos de strain segmentar mostram diferenças relevantes entre parede livre basal e média e a região apical, tanto em repouso quanto após exercício. Isso reforça a necessidade de avaliações que captem a heterogeneidade mecânica – speckle tracking, strain segmentar, ressonância com volumetria detalhada e, idealmente, testes funcionais em esforço.

Para o atleta e para profissionais dedicados ao desempenho, a síntese prática dessas evidências é clara: o coração se adapta intensamente ao treino de endurance, e essa adaptação é majoritariamente benéfica. O VD cresce, torna-se robusto e eficiente, sustentando altos débitos por longos períodos. É fisiológico que, em eventos longos, ele apresente fadiga transitória e recupere-se em poucos dias. Contudo, é igualmente evidente que a carga mecânica que recai sobre o VD é maior do que a imposta ao ventrículo esquerdo, e que, em uma minoria, pode levar a remodelamento menos favorável ao longo de anos de treinamento intenso.

Do ponto de vista estritamente fisiológico e biológico, isso sugere alguns princípios fundamentais: respeitar a recuperação entre sessões e provas longas; reconhecer que aumentos contínuos de volume e intensidade não geram benefícios lineares; e compreender que o “coração de atleta” é um espectro de adaptações no qual o ventrículo direito ocupa papel central. Em última instância, o VD do atleta de endurance não representa um elo fraco, mas sim uma estrutura altamente especializada, operando no limite da eficiência mecânica. Gerir esse limite – por meio da periodização, do controle de carga e do monitoramento refinado da função cardíaca – é parte essencial da fisiologia aplicada de alta performance, tão importante quanto ajustar a potência na subida ou a cadência na transição do ciclismo para a corrida.

 

Referencias:

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