Entre o platô e o crítico: VO₂máx, MLSS e a era de repensar o que medimos

por | nov 11, 2025

A história do VO₂máx costuma ser narrada como um romance científico de certezas: ao final de um teste incremental, seria esperado um “platô” inequívoco, e a presença desse platô garantiria que se havia medido um verdadeiro máximo de consumo de oxigênio. Nesse cenário, o coração é apresentado como o gargalo absoluto, limitando de forma determinante a capacidade aeróbica. Contudo, uma leitura detalhada das fontes originais e das reavaliações metodológicas revela uma realidade mais complexa — e muito mais interessante — para quem deseja treinar atletas ou interpretar respostas fisiológicas de maneira crítica e fundamentada.

O pesquisador sul-africano Tim Noakes, conhecido por seu trabalho pioneiro ao demonstrar a hiponatremia induzida por hiper-hidratação em provas de endurance, contribuiu decisivamente para desmistificar a origem do “platô”. Noakes observou que a expressão “platô” sequer aparece nos textos originais de Hill e Lupton, os pioneiros na mensuração do VO₂máx, sendo uma construção posterior. No uso moderno, o “platô” foi definido por Taylor e colegas como um aumento inferior a 150 mL·min⁻¹ entre estágios consecutivos de um teste incremental. Ou seja, trata-se de uma definição operacional — um critério arbitrário para classificação de respostas — e não da “superfície plana” que a linguagem popular sugere.

Além disso, Hill e Lupton estabeleceram como teto do VO₂ um valor de aproximadamente 4 L·min⁻¹, considerando-o quase universal. Esse número histórico, entretanto, não resultou de uma avaliação sistemática dos platôs individuais, mas sim de médias populacionais e limitações técnicas da época. Assim, dois equívocos se consolidaram: primeiro, a semântica moldando a fisiologia; segundo, a ideia de um máximo quase fixo para todos os indivíduos. Essa combinação histórica abriu espaço para interpretações simplistas de testes máximos, reforçando a noção do platô como sinônimo de VO₂máx, quando na realidade isso é raramente observado de maneira consistente em indivíduos.

Diante dessa fragilidade da narrativa do platô, surge a questão: como confirmar que o VO₂máx foi realmente alcançado? Nos últimos anos, a revisão metodológica mais consistente aponta que a fase de verificação — realizada imediatamente após o teste incremental, de forma contínua ou em múltiplos estágios, ou ainda após um breve intervalo — constitui o procedimento mais sensível e pragmático para confirmar o verdadeiro máximo. Essa fase de verificação costuma durar de 2 a 3 minutos, embora nem sempre seja suficiente, e tanto protocolos supramáximos quanto submáximos podem ser empregados, desde que respeitem a lógica do incremental que os antecede. Um ponto crucial é abandonar critérios grupais e avaliar cada indivíduo isoladamente, comparando o maior VO₂ obtido no teste incremental com o da fase de verificação.

fONTE: Hebisz P, Jastrzębska AD, Hebisz R. Real Assessment of Maximum Oxygen Uptake as a Verification After an Incremental Test Versus Without a Test. Front Physiol. 2021;12:739745.

Um aspecto técnico muitas vezes negligenciado, mas de impacto decisivo na interpretação do VO₂máx, é a forma como os dados respiratórios são processados. Após o teste incremental, o consumo de oxigênio é calculado a partir de médias móveis (janelas de suavização) aplicadas aos valores obtidos respiração a respiração. O tamanho dessa janela — por exemplo, 15, 30 ou 60 segundos — influencia diretamente o resultado final. Janelas curtas de 15 a 30 segundos permitem capturar com mais fidelidade os picos de VO₂, facilitando a identificação de um verdadeiro platô e fornecendo estimativas mais próximas do máximo real. Já médias longas, como as de 60 segundos, tendem a “alisar” as variações e, com isso, subestimar o VO₂máx. Além disso, é essencial relatar os erros típicos (a variação esperada entre repetições do mesmo teste) e os coeficientes de variação (o erro típico expresso em porcentagem da média), pois eles indicam o grau de precisão e confiabilidade do método. Por exemplo, um erro típico de 0,07 L/min e um coeficiente de variação de 1,7% sugerem excelente reprodutibilidade, mostrando que diferenças menores que isso não representam mudanças reais no desempenho. Esses cuidados analíticos — aparentemente técnicos e triviais — são, na verdade, o que determina se a evidência de um platô no VO₂ será cientificamente convincente ou apenas ilusória.

No campo metabólico, um mito persistente atribui ao MLSS (maximal lactate steady state) o status de “padrão-ouro” para a maior taxa de produção oxidativa sustentável. Um exame crítico revela que o próprio desenho do MLSS o torna conservador: define-se como a maior potência ou velocidade em que a concentração de lactato sanguíneo não aumenta mais de 1 mmol·L⁻¹ entre 10 e 30 minutos. Essa definição depende de coletas biológicas com erros inerentes, e o teste é conduzido em degraus discretos de potência ou velocidade (10–30 W ou equivalentes), o que empurra a estimativa do MLSS para valores inferiores à fronteira real de sustentação metabólica. Consequentemente, o MLSS representa, por definição, um domínio pesado, mas não a transição crítica entre o pesado e o severo, onde a homeostase metabólica inevitavelmente colapsa.

fONTE: Espada MC, Alves FB, Curto D, et al. Can an Incremental Step Test Be Used for Maximal Lactate Steady State Determination in Swimming? Clues for Practice. Int J Environ Res Public Health. 2021;18(2):477.

Uma alternativa mais robusta, tanto do ponto de vista fisiológico quanto matemático, é o critical power (CP), ou “velocidade crítica” no caso da corrida. O CP emerge da relação hiperbólica entre potência e tempo e, ao contrário do MLSS, não depende de um único biomarcador. Ele permite separar domínios de intensidade com respostas sistêmicas e musculares qualitativamente distintas: abaixo do CP, o organismo consegue atingir um equilíbrio homeostático, mesmo que em níveis elevados de esforço; acima do CP, o VO₂ apresenta uma ascensão contínua, incluindo o componente lento, até atingir o VO₂máx, e a tolerância ao exercício torna-se previsível com base na interação entre CP e a capacidade finita de trabalho acima do CP (denotada W′). Por essa razão, Jones e colegas sugerem que o CP define a verdadeira fronteira do “máximo estado metabólico estável” — distinguindo claramente onde a homeostase é possível e onde ela colapsa inevitavelmente.

Essa mudança de paradigma tem consequências estéticas e práticas. Esteticamente, ela substitui a imagem estática do platô por um relevo dinâmico de domínios de intensidade: no domínio pesado, observa-se um equilíbrio atrasado; no severo, uma escalada inexorável culmina no VO₂máx no momento da exaustão. Praticamente, fornece ao treinador e ao fisiologista um mapa previsível para prescrição e monitoramento do treinamento: conhecendo CP e W′, é possível estimar com precisão o tempo-limite para esforços severos, planejar intervalados que consomem parcelas controladas de W′, e posicionar sessões longas exatamente “abaixo da fronteira” que mantém a homeostase, permitindo adaptações periféricas, biogênese mitocondrial e ganho de capacidade aeróbica sem induzir fadiga catastrófica.

No entanto, o uso do CP exige rigor técnico. Estimar a assíntota da relação potência-tempo com baixa margem de erro requer três a quatro (ou mais) testes até a exaustão, distribuídos entre ~2 e 15 minutos, modelagem criteriosa e relato do erro padrão. Valores de <5% para o CP e <10% para W′ são considerados aceitáveis. Variações individuais de esforço e diferenças entre formas lineares ou hiperbólicas pedem ajustes iterativos para obter o melhor encaixe individual. Sem esses cuidados, a pergunta “quanto tempo é possível sustentar o CP?” transforma-se em um dilema falso, pois pequenas variações podem colocar o indivíduo ligeiramente acima (domínio severo) ou abaixo (domínio pesado) da fronteira, com respostas fisiológicas substancialmente diferentes.

Retomando o argumento central:

  1. O “platô” do VO₂ não possui o pedigree que muitos supõem, e sua ocorrência é relativamente rara. Assim, a confirmação do VO₂máx migrou de forma legítima para a fase de verificação, com regras metodológicas claras: janelas curtas, análise individual e duração de 2–3 minutos quando possível.
  2. O MLSS é útil como referência, mas subestima a verdadeira fronteira entre o sustentável e o insustentável.
  3. O CP, ao contrário, materializa essa fronteira, integrando a história da potência-tempo com a fisiologia dos domínios de intensidade, oferecendo uma métrica preditiva e prescritiva robusta para o treinamento.
  4. Por fim, a qualidade das conclusões depende menos de slogans (“platô”, “limiar funcional de 60 min”) e mais da honestidade metodológica com que os dados são coletados, processados e modelados — um verdadeiro artesanato científico que, quando bem executado, transforma a ciência do desempenho em uma obra refinada.

Em termos de aplicação prática, isso se traduz em três movimentos operacionais:

  1. Confirmação do VO₂máx: realizar a verificação com protocolo adequado ao contexto (modo, intensidade, duração), processando os dados em janelas curtas, e reportando erro típico e critérios individuais de concordância.
  2. Prescrição de intensidade pesada/severa: basear-se no CP e W′, reconhecendo que o MLSS serve apenas como referência intra-pesada e não representa a fronteira do colapso homeostático.
  3. Transparência na modelagem: reportar sempre a incerteza do modelo adotado, pois a boa ciência não apenas define critérios, mas também explica sua confiabilidade, como lembrava Pettitt: “em algum ponto é preciso escolher um critério”.

No final, as lições de Noakes sobre história, metodologia e verificação, e as lições bioenergéticas sobre o CP convergem em uma única linha melódica: medir é sempre interpretar, interpretar é reconhecer que o “máximo” não é um ponto, mas um limite que organiza domínios, e treinar bem é dançar na borda desse limite, sem confundir a fronteira com o platô.

Referências:

Espada MC, Alves FB, Curto D, et al. Can an Incremental Step Test Be Used for Maximal Lactate Steady State Determination in Swimming? Clues for Practice. Int J Environ Res Public Health. 2021;18(2):477.

Hebisz P, Jastrzębska AD, Hebisz R. Real Assessment of Maximum Oxygen Uptake as a Verification After an Incremental Test Versus Without a Test. Front Physiol. 2021;12:739745.

Jones AM, Burnley M, Black MI, Poole DC, Vanhatalo A. The maximal metabolic steady state: redefining the ‘gold standard’. Physiol Rep. 2019;7(10):e14098.

Noakes TD. How did A V Hill understand the VO2max and the “plateau phenomenon”? Still no clarity?. Br J Sports Med. 2008;42(7):574-580.

Niemeyer M, Knaier R, Beneke R. The Oxygen Uptake Plateau-A Critical Review of the Frequently Misunderstood Phenomenon. Sports Med. 2021;51(9):1815-1834.

Schaun GZ. The Maximal Oxygen Uptake Verification Phase: a Light at the End of the Tunnel?. Sports Med Open. 2017;3(1):44.