PORQUE NÃO BASTA SUPLEMENTAR COM carboidratos em desafios de endurance

por | nov 7, 2025

Embora o aporte exógeno de glicose seja um instrumento crucial na estratégia nutricional de endurance, sua eficácia é modulada por limitações de absorção, disponibilidade e utilização periférica, além de fatores centrais e metabólicos de ordem regulatória.

Primeiramente, existe uma capacidade limitada de absorção intestinal. A glicose é transportada do lúmen intestinal ao sangue majoritariamente pelo cotransportador dependente de sódio SGLT1, cuja capacidade de saturação impõe um teto à taxa máxima de entrada e subsequente oxidação de carboidratos. Mesmo utilizando combinações de diferentes monossacarídeos — como glicose e frutose — para acionar vias complementares de transporte (GLUT5), a taxa de oxidação exógena dificilmente ultrapassa 1,5 a 1,8 g/min (~90–110 g/h). A ingestão acima desse limite não se traduz em maior oferta metabólica, mas tipicamente resulta em desconforto gastrointestinal, náuseas e diarreia, evidenciando que a taxa de passagem gastrointestinal e o transporte intestinal são gargalos determinantes.

Fonte:Cao W, He Y, Fu R, Chen Y, Yu J, He Z. A Review of Carbohydrate Supplementation Approaches and Strategies for Optimizing Performance in Elite Long-Distance Endurance. Nutrients. 2025 Mar 6;17(5):918.

Além disso, o glicogênio muscular permanece como o principal combustível para altas intensidades, devido à rapidez com que pode ser mobilizado e à independência relativa de controle endócrino e disponibilidade sanguínea. Quando as reservas intramusculares declinam, há uma inevitável redução na potência sustentada, com maior participação de lipídios como substrato energético, o que resulta em menor taxa de ressíntese de ATP e redução de desempenho. Portanto, mesmo com ingestão exógena ideal, a suplementação não substitui integralmente a necessidade de reservas adequadas de glicogênio.

Fonte:Cao W, He Y, Fu R, Chen Y, Yu J, He Z. A Review of Carbohydrate Supplementation Approaches and Strategies for Optimizing Performance in Elite Long-Distance Endurance. Nutrients. 2025 Mar 6;17(5):918.

Outro ponto crucial é que a gliconeogênese (GNG) hepática permanece necessária, mesmo na presença de carboidratos ingeridos. Durante esforços moderados a intensos, o lactato produzido pelos músculos ativos é continuamente reciclado pelo fígado — o chamado lactate shuttle — convertendo-se novamente em glicose para manutenção da glicemia e continuidade da glicólise muscular. Esse processo auxilia no equilíbrio ácido-base, controla o acúmulo de lactato e fornece substrato entre os intervalos de absorção intestinal. A falta de uma resposta gliconeogênica eficiente compromete o balanço energético e metabólico sistêmico, acelerando o aparecimento da fadiga.

Adicionalmente, a disponibilidade de carboidrato não resolve integralmente a fadiga central. A queda do desempenho pode ser desencadeada por múltiplos fatores não diretamente relacionados ao fornecimento de glicose, incluindo hipertermia, desidratação, alterações nos eletrólitos e mecanismos neuroquímicos que envolvem neurotransmissores como serotonina e dopamina. Dessa forma, mesmo com oferta adequada de carboidratos, o cérebro pode reduzir o drive motor para proteger a homeostase do organismo.

Fonte:Cao W, He Y, Fu R, Chen Y, Yu J, He Z. A Review of Carbohydrate Supplementation Approaches and Strategies for Optimizing Performance in Elite Long-Distance Endurance. Nutrients. 2025 Mar 6;17(5):918.

Por fim, a utilização de glicose pelo músculo é limitada por condicionantes hemodinâmicas e endócrinas. Durante o exercício, há redução fisiológica da insulina e a entrada de glicose no músculo é regulada predominantemente pela translocação de GLUT4 dependente da contração. Simultaneamente, o fluxo sanguíneo é redistribuído da circulação esplâncnica para os músculos ativos e para a pele, em função da termorregulação, podendo comprometer temporariamente o aporte de nutrientes a órgãos digestivos e ao próprio fígado.

Fonte:Cao W, He Y, Fu R, Chen Y, Yu J, He Z. A Review of Carbohydrate Supplementation Approaches and Strategies for Optimizing Performance in Elite Long-Distance Endurance. Nutrients. 2025 Mar 6;17(5):918.

Em síntese, embora a suplementação de carboidratos durante exercícios prolongados seja essencial para preservar a glicemia e retardar a exaustão do glicogênio, ela deve ser compreendida como parte de um sistema bioenergético multifatorial. O desempenho ótimo resulta do equilíbrio entre absorção intestinal, reservas e utilização de carboidratos, capacidade gliconeogênica, regulação neural e homeostase hidroeletrolítica e térmica. Essas interações reafirmam que a nutrição esportiva deve ser integrada às adaptações metabólicas induzidas pelo treinamento para alcançar os limites superiores da performance humana no endurance.

Referências:

Cao W, He Y, Fu R, Chen Y, Yu J, He Z. A Review of Carbohydrate Supplementation Approaches and Strategies for Optimizing Performance in Elite Long-Distance Endurance. Nutrients. 2025 Mar 6;17(5):918.

Mata F, Valenzuela PL, Gimenez J, Tur C, Ferreria D, Domínguez R, Sanchez-Oliver AJ, Martínez Sanz JM. Carbohydrate Availability and Physical Performance: Physiological Overview and Practical Recommendations. Nutrients. 2019 May 16;11(5):1084. doi: 10.3390/nu11051084.